Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
23/10/2017 18h30
AS MULHERES POETAS...(100ª postagem)

LEILA FERRAZ  (1944). Poeta paulistana, ensaísta, tradutora, fotógrafa e artista plástica. Participou ativamente do Movimento Surrealista em São Paulo de 1965 a 1970. Em 1968 vai para Paris onde estreita contatos com o Movimento Surrealista Internacional. Em 1977 lança seu primeiro livro de poemas: Cometas . Em 1980 seu segundo livro : Poemas Plásticos. Em 1998 publica poema e ensaio em Surrealist Women -  An International Anthology editada pela University of Texas – Austin .

OLHOS BOIANDO

Aquarelados olhos teus e meus atravessam o mar em cristas

Passando pelas pernas das pontes

Me olho então

E perco meu olhar de vista

 

Aquarelados morros meus e teus

De indefinidos contornos devorando céus

Colando os ouvidos em nossos ventres a escuta de tempestades eternas

Jamais despencadas

Profetizando a ameaça dos sonhos e das ideias

 

Aquarelados olhos nossos

De portas abertas

E peitos e ventres a mostra na superfície do mar

Boiamos uma relação de serpentes

Numa sedução muda e fraterna

Entre as algas de um mesmo conhecimento

Nas verdades veladas das chapas de cobre riscadas e nos papéis queimados

 

Paisagens pela centésima vez repintadas

 

Perco meu olhar de vista

Desfoco todos os contornos de afogada

Disfarço minha morte

E quando nua pelo avesso sou mais nua

 

Acelerada enrosco-me entre árvores

Em curvas infinitas de passado infinito

Onde minha boca abocanha minha cauda

 

Boiando

Velocidades se deslocam em minha direção na superfície do plano mole

Aberta

Do centro de meu umbigo se estendem os pontos de fuga

Projetando já o início e o fim do meu trajeto

 

Deitada sobre o mar balanço num círculo de imagens disfarçadas

 

Vermelhos escondidos

Bocas murmurando palavras de cerejas

Palavras lidas entre nossas  bocas

 

Quero aportar-me lá

Mesmo

Sim

Sem talvez

Lá onde perco meu olhar de vista

E o sentido é um telhado de vidro

E o poeta o último pedaço possível

Para reconstruir um frágil nome

Indivíduo.

 

ONDINAS

Ainda bêbada de sono no limbo dos sonhos li uma a uma as tuas

palavras

Rasguei-as de seus sentidos e colei-as pela extensão do  meu

corpo

Desenhos sem geometria adornaram meus quatro cantos e as

                ondas dos desejos perderam suas marés

Vozes de espumas vorazes arrebentavam seus significados nas

                praias

Águas primordiais lambiam por entre tuas pernas e esquecias teu

                corpo no enlace das Ondinas

Cruzando-as e perdendo todos os vestígios da sensatez

Bocas cheias de espumas brancas beijavam as solas descalças

                de meus pés em conchas e me desfaleciam de prazer

Como impedir uma inspiração na umidade de Thalassa?

Não sucumbir ao naufragar pelos pudores de tuas conchas?

Deixei-me fustigar até verter sangue e dele te alimentei sem saber

                o que fazia

Anfíbios seres do mar devoluto ultrapassam símbolos sagrados

E em quedas sublimes uma vez mais em nós mergulhamos

 

OS PRISIONEIROS

Usei o negro como ponta de lança

E o vermelho como razão agonizante

Silenciei anarquicamente as portas

Das mãos entrelaçadas

Cobri montanhas traficadas  e

Infanta

Escutei as histórias que nunca ouvi

Abri os braços em revoluções do nada

E mais alto subi abrindo o céu a unhadas

Porque sou jovem

Tresloucada

Gêmea e apaixonada

Gritando palavras de ordem

Tirando panfletos da pedra

Numa corrente de mãos e construindo barricadas

 

Entrevi um pedaço da história arrancada a palmadas

Das ruas de Paris

E se Não dormi e se não comi

Fui corpo só pulsando sensitivo entre matracas

Que tentavam impedir a melhor das trepadas

A trepada do cio

A trepada fecundada

A trepada inesquecível

A trepada que funde

Viva a vida e viva a morte

A trepada do corpo

A trepada menstruada

A trepada que para o tempo

A trepada sem idades

A trepada de todas as gentes

A trepada sem pátria

A trepada bastarda

(esta trepada com  a vida foi plenamente gozada em maio de 1968, em Paris)

 

PRIMEIRO MESTRE-O MAGO

Meu rosto desfigurado e manchado pelas sobras dos tempos

Me contempla no palco iluminado apenas.

Centenas de velas acesas derretem em meus sonhos e perco

                Meu carro em um baralho de tarô.

Subo e desço as ladeiras sem fim no labirinto do meu sonho

                Até encontrar você.

Meu primeiro mago, meu bruxo de milhões de instantes.

Meu dia de Ulisses chegando a Ítaca.

Subo as escadas inexistentes do teu atelier mágico.

Quero pronunciar teu nome

                Mas me tapam a boca mil mãos de pais e mães inexistentes.

Lá no teu quarto samurai te vejo sobre o leito desfeito

De braços abertos e o sorriso pronunciando meu nome.

Venha e cole teu corpo nu ao meu Olimpo.

Sintamos a colagem perfeita construída milímetro a milímetro.

Grudados estamos e minha boca se derrete em tua saliva.

Somos a mistura carnal do prazer amoroso.

Nos queremos como fogo fátuo e nos tocamos como tocha e brasa.

Ardem as nossas peles em desfigurados olhares.

                Eu te beijo e tu me beijas.

Eu ainda viva e tu vivo apenas e para sempre neste meu sonho.

Amigo e primeiro mestre que saudades tenho de ti.

 

LUCIANE LOPES (1971) poeta paulista, nasceu e vive em Mirassol. É letrista e raramente passa um dia sem escrever algum poema. Estudou publicidade e propaganda na UNIRP, São José do Rio Preto e possui uma empresa de RH.Seu primeiro livro, O miolo do mundo é macio,será lançado brevemente, talvez ainda neste ano.

O AMOR QUANDO É ANTIGO

O amor sim

é bicho estranho

atrevido

Se veste de monstro

marinho,

faz carinho nas minhas

nádegas.

Arrebenta ondas nas ancas

-um pescador –

de baixo dessas

anáguas

 

PIRÃO

Alguns diálogos

ainda me estupram,

enfiam sua peixeira

nas minhas tripas.

Nunca fui avessa

aos maus tratos

[da minha própria

cabeça]

 

Se bem temperados

sou capaz de lamber

os falos.

 

ON THE ROAD

Por favor:

um amor pra viagem

e um suco de eternidade

 

INTERVENÇÃO CELESTE

minha oração

é mais subversiva

[do que a tua]

enquanto suporta

a salve rainha

te mordo as mãos

postas e o osso

sacro

ISABELA PENOV(1986) poeta, atriz e fotógrafa. Dedica-se à poesia falada e escrita. Seu trabalho em poesia falada pode ser visto na crescente cena paulista de slam (campeonatos de poesia autoral falada,) no seu canal no Youtube e também nos vídeos “Cuidado: Inflamável” e “Mal Menor”, ambos lançados no ano de 2015. Mantém o blog Semeaduras (isabelapenov.blogspot.com)

POEMA PRO MUNDO

Olhar o mundo

como se visto de uma estrela

(o passado espia o futuro):

um pequeno ponto em movimento num infinito em movimento -

como fosse uma bailarina no fundo do mar.

Olhar o mundo

como se visto da plateia:

no silêncio do espaço ecoa a voz de La Negra:

“cambia, todo cambia

cambia, todo cambia...”

enquanto elas giram - elas: a Terra, La Negra, a bailarina.

Olhar o mundo

como se visto de um satélite:

porção água,

porção nuvem,

porção terra.

Azul, branca, multicor

flutua.

 

Olhar o mundo

como visto num sonho

(o de dentro espia o de fora):

nada falta. Sua beleza está completa

e a gente vendo

como quem nunca viu

um mapa:

o mundo

como veio ao

mundo: nu

em sangue, vérnix, silêncio e

nenhuma,

nenhuma ínfima

fronteira.

 

POEMA EM PREFIXO

Basta. Desisto do verso.

Agora eu quero o in-

verso. Ou o reverso.

Eu quero agora o anti

verso. O diverso. Quero

o pluri, o multi, o uni

verso.

 

E depois

depois eu quero

o que vem antes.

Eu quero, eu quero, eu quero

muito mais, além e sobretudo eu

quero o

sub

verso.

 

o verso subnutrido

o verso subempregado

o verso subestimado, subjugado

sub

entendido

?

o verso subdesenvolvido,

um tanto subordinado

(mas insubornável)

ordinário, mas sub

versivo.

 

 

Subversivo verbo:

ação: miragem:

ver só: distr-

ação: paisagem.

 

Subatômico. Supersônico.

Parido na noite insone,

na voz dos sem-nome,

no cancro, na peste, no corte,

no pulso da veia do homem,

na fome.

 

O subverso supérfluo

e super

fluido.

O verso lido no vagão superlotado e

sublinhado

(a linha trêmula partindo as palavras)

mudo, entalado, apertado e

(next station)

superlativo.

 

Verso que sub

verta

verso que sub

leve

verso que sub

merja.

 

Subliterário, um verso que

para, fica, segue sub

vertendo lágrimas

moendo vértebras.

 

Vendável, mas não vendido.

Verdade, mas não verídico.

Superado, mas invencível.

Surgido no vendaval.

 

Sub verso sub

merso em mil.

 

Sublingual: profana hóstia, calmante, anti

ácido.

Nascido no submundo

perdido no subsolo

esquecido no sobretudo.

Subterrâneo etéreo

Suburbano convicto, invicto,

inviolável.

O subverso suprassumo do suplício. Um precipício

página adentro. Um início após o fim.

 

Sub, super, hiper, infra, intra, entre.

Entre.

 

O verso sem superego.

A gota da superdose.

O verso na superfície

de dentro.

O verso sem sobreaviso.

O verso do sobrevoo.

Um dia de sobrevida

- perverso.

 

O verso sob.

Ele sobe. Versa

sobre. Conversa.

 

Substantivo e substância

e subsistência e susto. E súbito.

E tanto, tanto.

 

Destruído, substituído, violado, ignorado, impossível.

Impossível. Festejado, sussurrado, entoado, preciso.

Subalterno.

Preciso. Eu quero.

Eu quero, eu quero, eu quero,

sobretudo e mais do que  o

di, re, anti, pluri, multi, trans, universo eu

quero o sub, apenas.

Esqueçam perfeições, cumes, topos,

ignorem o sublime e cuspam

na estrela da manhã: eu

quero o

sub

verso.

Eterno.

 

MAL MENOR

Mas o que o menino merece?

O menor. Aquele sinal de menos, aquele fora de prumo que perambula tão próximo.

O que merece o menor, o menos, o zero à esquerda de deus pai?

Merece pai?, merece pão?, merece ser peão?, ser campeão?

O que o menino merece?

Dois anos a menos, dois anos a mais, tanto faz, nunca mais?

O que o menino merece?

O menino da desmemória, na ladeira. O que te desmerece. O que ele merece?

O que esmorece de fomes e dores na guia. Merece alegria?, da mais barata?, vapor barato?

Merece um trato ou dormir com os ratos, ao relento?

Merece o vento no cabelo ralo?

ou merece descer pelo ralo?

o menino franzino da borda do mundo que acorda imundo no meio da sua tranquila madrugada.

 

Merece morada?, namorada?, moradia?,

mordida ou lambida de bicho, o menino?

Merece entrar mais cedo no inferno?

merece um terno cortado? um pescoço cortado?

um corte?, uma morte?, um trote a galope?

 

Já está estragado, o menino?

Já é podre maçã?, pobre maçã?, febre malsã no teu corpo exposto nas ruas?

Não merece moças nuas, sumo de fruta, duas luas?

A podre maçã, pobre maçã, o menino malsão que apodrece vai contaminar os outros meninos da caixa, da cesta, da sexta-feira?

Será que você vai morder essa fruta bichada, e acabar sozinho no meio do nada, tremendo de medo na calçada

igual o menino faz em

toda

madrugada, será?

 

O que o menino merece?

O que aquele menino merece?

E o teu menino, o que merece?

Merece ser menino?

Ou cada vez mais cedo,

calado,

logo merece ser gerido e gerado entre grades e correntes umbilicais,

no caos,

caindo no abismo do noticiário diário?

Não merece um canário?, um algodão doce?, uma chance?,

o que ele disse que merece?

 

E você, que já foi menino?

E o teu menino

o que merece?

 

A CONCEPÇÃO

Ela já tinha engolido

sapos, risos, esperma e palavras.

Gritaram-lhe:

“Engole esse choro!”

Engoliu

e ele choveu dentro dela.

De madrugada procurou um papel:

tinha lhe brotado um poema.

 

CARLA CARBATTI (19  ) poeta mineira, é doutoranda em estudos da literatura e da cultura pela USC. Já teve poemas publicados na Germina, Mallarmagens, Alagunas, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Zunái, Jornal Relevo, Contratiempo. Estreou recentemente com o livro de poemas Cadencia do Caos.(2016)

[         ]

 o poema não tem

nenhuma missão ulterior

que conduza a uma explicação da vida

 

o poema é só

esta mosca triste

girando em volta de uma ferida

 

SOPRO

minha espécie tem anatomia para o escuro

para a palavra perecedeira cheia de vermelho nas bordas

para as roseiras e os pensamentos ao vento

para a solidão que enxerga pregos, lesmas, gatos

para os fatos não corroboráveis

e horizonte alongados de garças

tudo que se ajeita ao devir

ao movimento

mas estamos obrigadas a viver os acontecimentos

e as metamorfoses

sob a forma da Lei

nós, que mordemos a maçã,

sabemos

o território da boca

evoca outras gravidades, gradientes,

densidades, potências, realidades

outra linguagem

:fome: sede: sopro: salivas: mares

minha espécie permanece

até o último gole

até na garganta

pousar um pássaro

e no poema

o silêncio

 

DE FATO

o voo das borboletas

advinha a dança do caos

se trata de uma síntese

de silêncio e movimento

está em tudo

a leoa quando ruge

a vaca quando muge

o cavalo quando relincha

o balão quando incha

e plá

estoura no ar

faz circular

pequenas dimensões

de acontecimentos

então, pode ocorrer

de alguém ver o balão,

a vaca, a leoa ou cavalo

e escrever um verso

 

alguém ler o verso

e compor uma música

alguém escutar a música

e dançar

pode acontecer

não quer dizer que aconteça

a combinação dos elementos é caótica

a síntese é disjuntiva

já sucedeu de eu

dizer amor

e nenhuma estrela

acender no céu

 

MU...DANÇA

                                                    dance for love

                                                                   p. bausch

danço tuas palavras

a cada sílaba

a cada fonema

as reticências também

é preciso ir a menos

encontrar o silêncio                      os estilhaços

do que não há

vou até o limiar

catar estrelas no céu da tua boca

não são poucas as esquinas

onde me des-dobro

como diante de mil espelhos

perco as origens

 

encontro na falta

a multiplicidade

a possibilidade

de não ser

uma

a soma dos átomos é infinita

porque infinito o vazio

duas

os átomos não possuem

uma fronteira definida

como o amor o desejo

o   m o v i m e n t o

danço

sem coreografia

 

a palavra é instantânea

 

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 23/10/2017 às 18h30
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original.
 
02/10/2017 20h14
AS MULHERES POETAS...99ª POSTAGEM

MALU VERDI (  ) poeta gaúcha, é formada em letras, mestre em literatura brasileira e doutora em teoria literária pela Universidade de Brasília. Possui muitos textos musicados por autores italianos, seja de música experimental, seja erudita. Publicou Personagem possível (1984), Matéria sem nome (1987), Falas (1988) e Este fruto outro/Questo frutto altro (ltália, 1994). “O caractere do sono – entre Oriente e Ocidente” e “Coito com o real”.

 

MISTÉRIOS

                         (para Marcus, seu sorriso eventual)

Arrumar malas mais uma vez

arrumar, sentir o canto, o arrulhar

o novo rumo de objetos sós

precários, movidos de um lado para outro

repartidos, classificados, ensacados

coisas que buscam seu lugar

buscam como se seres fossem

pensantes:

- caber num espaço exíguo, a repartição dos pães

ao contrário

(todo o vivido em algum tempo, lugar

 na verdade, tempos multiplicados

 lugares exponenciais)

tudo

que se retorce, aperta, ensaca

para caber

numa mala

 

GOTA

Folha de forma perfeita

cai

De um verde verde

não se retrai

(é puro abandono)

vem ao chão

sem ser este o tempo

da queda

(a estação não é o outono)

Uma  gota verde bordada

geometricamente

com amarelos veios

( teia )

A folha se abre em linhas

letras finas  desenham

o território da folha

escasso e aberto

(veredas esboçadas)

Aranha-folha

Artista

traça bifurcações repetidas

(destinos)

Tudo cabe no espaço da folha

 caída

 

pousada na perna

 

MAS HÁ O SOL, HÁ A LUA

Aqui escuta aqui observa

aqui aguarda

Erma desarmada

escuta os  cantos

os incontáveis pássaros

Nem sei o que observa

ela, serva do nada,

olhar frouxo a anotar o dia

as águas que correm

e  as que em minhas costas

escorrem, morrem

Corro do que me arma

do que não me ama,

diz,

desarmada de tudo

o flanco ensangüentado

a anca de égua parada

inobservada

galopando na noite

Observa o ser

o seu, o de cada um

e  cala

Mas há o sol, há a lua,

digo,

e essa certeza pode bastar

Aguarda, escuta, observa

percebe a  cada dia uma diferença

 

na luz

 

REVISITANDO

a mesma luz o mesmo ângulo

a igualdade

da desigualdade

 

TATIANA PEQUENO (1979 ) poeta carioca, é doutora em Letras Vernáculas (Literaturas Portuguesa e Africanas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com tese sobre Maria Gabriela Llansol. Professora Adjunta de Literaturas Portuguesa e Africanas da Universidade Federal Fluminense (UFF). Publicou os livros de poemas:, Réplica das Urtigas(2009) e Aceno(2014).

1)

A urna avermelhada que trago

por dentro da costura deixa

aberta a poça que me sai do

baixo e o ventre é de onde

partem os naufrágios quando

mudas as viagens trazem o mar

e finados são os filhos as luas

todas as mulheres são cruzes

punhos vapor e sentinelas

acordam várias lâminas de

passagem sobre o chão e a

pedra – fêmeas criam estirpes

de fria couraça e também

preparam a dura e lenta sorte

dos que perdem o medo e a

parte sedada de si. nas urnas

não adoecem mais as aves

lançam elas o corpo trançado

das labaredas. queimam os

obituários e as lapelas tidas

como cimento para o amor

e para os nomes.

2)

zona norte

não era adeus era

uma forma mais bruta

de se cansar da vida

não era perder porque

perdido muito já se sentia

tampouco era verão no

que seguia o curso de uma

avenida

éramos só nós duas selando

um arremesso como se eu só

pedisse clemência e abrisse

o sinal para outra curva.

não foi distância. foi um

corpo abaixo da sombra,

entre o suor temperado de

carne e a direção que não

pude indicar ao motorista

quando tomei aquele táxi

e te deixei ali para que

voasses para o retorno em que

exatamente te perdi.

3)

tantas vezes fui à igreja matriz

para pedir dinheiro, vagas e depois

a tua ida. na escadaria da penha

os degraus são calçados pelo peso

de quem carrega velas, dores e fitas

e nessa sorte sempre te levei comigo.

foram anos de longo subir. não sei

como se volta ao cimo duma pedra

depois que se sai da espera. lembro

apenas do nascimento de uma montanha

dessa imagem de paciência e calor no

seu núcleo.

os pés dos peregrinos são um retrato

exato do que pedem: sobre ti nunca

ultrapassei a nave dos mortos. e o

que inventei mesmo foi uma passagem

sem guia. algo como o que o orixás

e os santos levam nas mãos: um espelho

uma adaga uma rosa

por vezes uma chave sem rituais

ou aquilo que atravessa o corpo

depois da lança.

 

as fotografias de meses atrás acovardam

uma lápide sobre nós.

e na volta estavam lá

os calçados azuis

ao lado da cama

como se você estivesse sempre

para chegar.

4)

quem me tomou a casa sabia da

lamparina de fogo no seu centro

e desconfiava que dos utensílios

fossem traçadas quimeras de sabre.

quem me tomou a casa deixou apenas

a desconfiança das magas antes da

partida das ovelhas outra vez

em guarda para quebrar o sinal

dos cofres que ornei com folhas.

quem me tomou a casa encontrou

os dentes entre a carne e forjou

na hematose a janela sem vista

a jaula com fera descolorida.

quem me tomou a casa violou o

amor sobre as mesas porque me

trouxe um veneno para as orquídeas.

que me tomou a casa levou o seu

tamanho dividido entre caixas e

rasgou o meu membro pelos dias.

e como há tanto de pele nestas paredes

onde minha casa não está que não deixo

mais móveis, resguardos ou queixas.

quem me tomou a casa foi ao encontro

dos muros. lá condicionou-se ao

concreto.

CRIS DE SOUZA (19  ) poeta capixaba, estudou na Universidade Federal do Espírito Santo e vive em Vila Velha. Lançou este ano, em março, seu primeiro livro de poemas: Na Frente da Loucomotiva.

ELÉTRICA

Estou meio

Louca

 

Estou meio

Emotiva

 

Estou toda

Loucomotiva

 

PRETEXTO

Basta uma lua

E vira uivo

O verso

 

Basta um vinho

E vira verso

A uva

 

Basta um verso

E vira vasto

O resto

 

PRESCRIÇÃO

Não consegui

Livrar-me

Dos internos

Sintomas

 

Segui

Inflamando

Os devidos

Idiomas

 

De noite

Entre bulas

E bocas

 

Salvou-me

Um poema

Em coma

 

EM ÓRBITA

O poeta

Gira

 

Em torno

Da pauta

 

Feito

Espaçonauta

 

SIMBÓLICO

bilhete

para um sonho:

a sombra

só pode ser

sonâmbula

YASMIN NIGRI(1990) poeta carioca, crítica de arte, bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa, artes visuais, oficinas de criação poética e performance. Escreve muito, lê mais ainda e é obcecada por documentários de arte. Além disso, é colaboradora da revista caliban e co-fundadora e integrante da disk musa.

CID 10 - S91.3

Em delírio fui copo

À espera do teu juízo

Fui esquecida

Largada no quarto

Durante sua festa

Virei cinzeiro

Estive imóvel e atenta

À espera do seu chute

Cortei seu pé

Fiz sangrar

Causei toda sorte de infortúnios

Da dor

Ao tétano

Nem cruzes ou credos puderam dar cabo

Até seu pé ser amputado

 

MANUAIS

A gente sabe que está vencendo no capitalismo

Quando nos procuram pra falar só de trabalho

 

Você me diria ah,

mas qual a necessidade disso

tudo que fazemos vira poesia, tem eco

 

Ao passo que eu ué,

você fez uma panela enorme de lentilhas essa semana

qual a necessidade de toda essa lentilha?

 

Essa desistência é provisória

Tudo será superado

Domingos transgênicos tabagismo danças húngaras

 

Talvez seja mesmo de aceitar

Que a toda hora há alguém traduzindo

— mal traduzido

Uma obra do Nietzsche

 

UM POEMA PARA OS ROLLING STONES

Quatro anos de graduação

Dois anos de mestrado

Seis anos de alemão

E quando vejo essa porta vermelha

Ainda quero pintá-la de preto

 

Não tenho mais paciência para amar

Talvez devesse praticar o zen budismo em Copacabana

Custa vinte reais a sessão de zen budismo em Copacabana

Eu não poderia praticar o zen budismo em Copacabana sendo mesquinha

Deixa pra lá começa sete da manhã o zen budismo em Copacabana

Não é que eu seja mesquinha é que eu não tenho pra dar mesmo

Tudo é uma questão de logística

 

Ando refletindo sobre estreitar relações com minha espiritualidade e

Fora da faixa de pedestres um carro em alta velocidade quase me atropela

—Tá maluca, quer morrer?

—Talvez eu queira sim, seu idiota!

 

Às vezes perguntas tolas me vêm à cabeça

Como assim você é fã dos Beatles

E atravessa fora da faixa

 

Às vezes pensamentos malignos me vêm à cabeça

Sabe o que cairia bem agora

Você de um prédio

 

MWAUHAUHAU

Eu queria evitar a fadiga e não pensar em você

Respeitar seu desejo de não poetizar mais você

Porque aqui você sai efetivamente diferente de quem você intenciona ser

A minha vingança é que todos os poemas de amor que te escrevi são ruins

Inclusive esse

E minha vontade é reunir todos eles e publicar com o título

Minha vingança será nunca te escrever um poema bom

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 02/10/2017 às 20h14
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13/09/2017 17h55
AS MULHERES POETAS...98ª POSTAGEM

WANDA MONTEIRO(19  ) poeta paraense, é advogada e escritora. Já  foi revisora e produtora editorial. Divulgou seu trabalho em revistas, blogs e sites. Publicou O Beijo da Chuva, (2009), Anverso, (2011), Duas Mulheres Entardecendo, (2011) e Aquatempo – Sementes líricas ( 2016)

no oráculo de brancas coxas

a virgem desvela-se

a castidade

rubra

rosa

pecaminosa

tomba

!

 

 a espada em silêncio e fé

 verga

e

rende-se

 

vencida pelo cansaço das veias

 

INTERDITO

De mãos em punho

O Passado

Chega a cada instante

E investe contra meu peito

O Passado é o murro que me açoita

A cada açoite

A face do Presente evanesce

O Futuro a recolhe

Sorvendo-a

Roubando-me o Meio

O Tempo erra-me

Decreta-me

Interdito!

Sou apenas um patético corpo

Orgânico

E hipotético de uma história inacabada

Existência fadada à eternidade etérea da memória

Povoada por fantasmas

Eu perdi meu itinerário

No interlúdio melancólico do Passado

 

NAUFRÁGIO

o desejo de ti

submerge

 

tudo é sede e fome

dentes trincados

fruto proibido

 

tudo é palavra calada nos lábios

voz abortada no ventre

 

tudo é grito

do que não disseram as palavras

os olhares ausentes

os gestos extintos

 

tudo é dor

que sangra no fio da carne

ávida do beijo estancado na boca

 

tudo é som

desmedido pulsar

sonora matéria que infere e fere

um coração que chove água e sal

 

tudo é abismo

dor escavada no peito

coberta com migalhas de afeto

misericordioso respeito

 

tudo é segredo desvelado

 

tudo é naufrágio

mergulho cego

fúria de marés

 

embriaguez turva de quase amor

 

o desejo de ti

é naufrágio

...........................................................................................................

 

O meio é fenda

Breu que guarda a luz

De línguas cegas

Em abissal mergulho de desejos

 

IARA CARVALHO(1980) poeta potiguar, é graduada em letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia. Participou de diversas coletâneas de poesias e contos resultantes de premiações literárias. Lançou o seu primeiro livro de poemas, Milagreira, em 2011. O segundo, Saraivada, apareceu em 2015.

SEGREDOS

as operárias

atravessam a rua

com seus cabelos vermelhos.

 

disfarçam

planos incendiários

silêncios estratégicos

sonhos verdejantes.

 

quando voltam pra casa,

os companheiros

permitem toda ausência

e pudor.

 

o que as operárias

guardam no fundo

do formigueiro

ninguém sabe,

 

mas é coisa muito grande:

 

um esqueleto,

 

uma flor

 

MEDIEVAL E SANTA

Nos minérios de sua parede,

há mistérios de fogo, sal e lenda.

 

(sinistras sendas

segredadas em sonhos)

 

Para o encontro da botija,

quebro os azulejos

pintados pelas mãos

de minha bisavó.

 

Ouro e prata

azuleiam meu coração

com dor vidrada e secreta.

 

Penso em sair correndo,

mas meu corpo está fincado

no chão da cozinha:

 

o ímã da terra me chama

ao encanto das origens.

 

SARAIVADA

apresso o passo,

que lá vem o silêncio.

 

corra:

ele consome

suas melhores preces.

 

voar é grande

— então voe.

 

exploda

espalhe

ecoe.

 

não recolha os cacos de

memória e osso

nem amacie o dorso ferido

dos campos minados.

 

desfira um golpe

misericordioso

no corpo sem carne

do silêncio.

 

e com o sangue escorrido

escreva um livro.

 

DESFEITA

cortei cabelo,

unhas

e todos os carboidratos.

 

os meus pulsos,

porém,

ainda estão intactos.

 

BRUNA KALIL OTHERO (1995) poeta mineira, publicou seu primeiro livro, “POÉTIQUASE” em fins de 2015, quando tinha apenas 20 anos.Mas antes disso já havia participado da antologia Sarau Brasil(2014) e divulgado seus poemas em O Emplasto e na Germina.É estudante de letras na UFMG e empreende pesquisa sobre a presença do corpo na poesia atual escrita por mulheres.

DELÍRICO

Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

escrevo poemas como quem bate

na porta

perguntando

timidamente

se pode entrar

escrevo poemas como quem bate

no peito

tentando arrancar dali

uma veia do coração

sangue venenoso

escrevo poemas como quem bate

palmas

estupefata de ver

um filho meu

grudado no papel

e esse êxtase todo esse delírio

me excitam

quando rodo a maçaneta

escrevo poemas como quem bate uma punheta

 

DE VERÃO

nosso amor é um castelo de areia

que nós

persistentes

munidos de pás e baldes

plásticos

lutamos pra construir

no terreno movediço

desta praia

e ele fica lindo

imponente

com janelas grandes alas

salões de festa

bandeiras

tudo isso

pra no fim do dia

o mar vir

de inveja ou solidão

e derrubá-lo

no glamour aquático

do caos

o pouco que fica

além da vaga memória arquitetônica

é um grão de areia

persistente

na calcinha do meu biquíni

 

TEMPO

vejo ao longe

aquela mulher decadente

com o rosto gasto

as mãos gastas o pescoço

e o ar de

já foi bonita

alcanço-a

caminhamos lado a lado

ela me olha

fixa

eu pisco

passo na sua frente

com o passo

trêmulo consciente

amanhã

serei eu

a decadência

 

CONFUSÃO MIMÉTICA

eu não sou eu

Sebastião Uchôa Leite

este eu

que está aí

pomposo cheio de si

se querendo todo achando

que é o rei da cocada preta

este eu

não sou eu não

viu?

juro que eu

– eu de verdade –

eu sou ótima

conversada despojada

e no máximo

princesa dessa cocada

 

JULIANA AMATO(19  ) poeta paulista, edita, traduz, revisa e escreve. Publicou Brevida (2011), diário aleatório – site/livro em parceria com Thany Sanches e Jezebel, ilustrado por Mariana Coan, integrando o projeto Boca Santa. Os poemas selecionados fazem parte de Correspondência, seu primeiro livro de poesia. Escreve há algum tempo no microclima, que está um pouco abandonado, mas pretende renascer dos escombros.

agradeço sem palavras sua aparição

a lembrança do meu nome

agradeço as gravatas

as admiráveis gravatas e lamento

a sua ausência

aqui tudo vai intranquilo

mas me acalma o instante

ver sua alma disposta

ao vento que passa

(sua alma

nebulosa)

é verão na borda do atlântico

faz sol e mar mas não podemos

não, não podemos agora

 

****************************************************************

hace um año que te fuiste

tan pronto irás, una vez más

neste exato momento me vejo num quarto

fechado

frestas abertas, a janela

você ainda criança atrás da cortina

observa

você, observo seu olhar

compreende:

não existe mãe no brasil

não existe casa, essa casa, aqui

há o futuro e há tudo

há milhares de rochas

pedras pontiagudas

traiçoeiras

pensa na sua casa

sua casa tão longe, aqui,

uma pedra quente

e lisa

 

de M. para F.

inverno, 2011

assim recomeço depois da demora

culpa do A aberto

do caos, da casa

do novo fôlego

continuo longe as roupas estão

no devido lugar

(é possível sim dividir com

estranhos, e sonhos, oui)

no vagar, nunca fui a porto alegre

sequer ao porto

mas às montanhas

ao novo ano

ao branco puro aos amigos fui

à irremediável fronteira

da língua:

randonné significa

escalar a neve

descobri a 2 mil metros do chão

e alguma ideia na cabeça

para um papel

 

DEZANOTAÇÕES SOBRE A POESIA

assim recomeço, me perdi

vi Baudelaire milimétrico, construído

pela primeira vez

pois bem há os que ganham

por pontos

os de nocaute

e os momentos amargos

que já passei

projetos poéticos passam a perna

p-p-p-p

o projeto poético, um enganador

eu, um muito menor (debutante

no auge da hysteria – saltinhos)

um projétil, nenhum rimbaud

nem meio rilke

muita potência, pouca questão

as solas dos pés ardem no chão

os olhos não estão prontos

para rever

o resto desse que se vai

fica e lança um abraço

demasiado

apertado

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 13/09/2017 às 17h55
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original.
 
24/08/2017 17h25
AS MULHERES POETAS...97ª POSTAGEM

VERA ALBUQUERQUE(19  ) poeta paranaense, é psicóloga, educadora e ativista cultural. É autora de livros infantis, consultora editorial, criadora de projetos de formação para professores em estados e municípios. Coordenadora interina do Fórum das Entidades Culturais de Curitiba .Publicou o livro de poemas Sozinhes

CLÁSSICO

Porque suas mãos me olham e seus olhos

passeiam em mim...

Quieta,sinto o que elas me dizem e,

Meus olhos fechados, escutam seus dedos

De pianista fazendo da minha pele

o número 3 de Rachmaninoff.

 

FUGAZ

“Coisas que duram bem menos do que a gente

quer: viagem, dormir com chuva, uma dança

bem dançada, um abraço apertado, uma

conversa ao redor da mesa, os amigos e o

alimento que tem nela, pessoas queridas que

chegam de surpresa, a risada estampada no

rosto de um filho e junto com isso a infância

dele, a vida dos cães, a música preferida que

de repente toca no rádio, o canto do sabiá no

meio do trânsito barulhento (eu ouço), aquela

voz tão esperada quando a ligação está ruim,

uma trufa, flores quando a gente ganha e

aquele olhar.

 

A SANGUE FRIO

Quebrar todas as regras,

desacreditar todos os anexins,

viver sem um laivo de mágoa,

porque quem espera, desespera

e eu vivo todos os dias o fim.

 

A lâmina que seguro pelo fio

Me corta a carne e rio.

Rio, porque o rio em que navego

Vai acabar no mar...e me deixo levar e

Meu pensamento, como meu sangue escorre

Arrebenta, ferve...queima...

Como uma torturada que se conserva viva,

Pra que fale, pra que escreva, pra que grite

Antes que morra...

 

Antes que morra... se morta já estava,

Porque a vida nada mais é do que sedução e miragens

Cogitações, assombros, encantos fugazes.

O sol que ilumina queima, o amor que incendeia

É cinza no fim.

Tudo nos escorre pelos dedos como água,

 

Por isso nada mais quero possuir, além de mim.

 

DESINSPIRAÇÃO

Não! Não me ame.

Não me ame por motivos que te fazem achar que me ama.

As razões desse amor não estão em mim.

E também não sei onde estão.

Não me ame. Eu te imploro. NÃO ME AME.

O amor que sente por mim é um fardo, um peso.

Um muro no meu caminho que me faz parar.

Como qualquer amor, não liberta.

Então não me ame. Seremos dois não amados, mas livres.

Eu prefiro...mil vezes eu prefiro.

As rédeas brilhantes do amor cegam a visão,

enganam os caminhantes e nos tiram a inspiração.

Quero minha inspiração. Ela não vem desse amor. Ela vem do caos,

das noites insones, ela vem da falta de amor...mas quando ela vem ela é plena,

e me completa.

Então não me ame.

Mas se ainda assim me amar, não explique, nem justifique e

Por deus – não me culpe.

E por favor não me conte.

Me ame em silêncio. É sublime e lírico...e me deixe ir.

Porque por amor algum eu ficarei refém de nada, além de mim.

E entenda enfim, que esse amor não existe.

O amor só existe em si mesmo.

Mas, se por desatenção ainda assim, quiser me amar,

não ponha as razões da alma,

não ponha as razões do corpo.

Não fale dos motivos de Deus (estes ninguém explica).

Não fale dos motivos meus (não existem).

Se quiser me amar, me ame sem motivos.

Não existem motivos no amor.

Os motivos querem explicação.

O amor ama.

Os motivos não

 

HELENA ORTIZ(19  ) poeta gaúcha, é jornalista, contista e editora. Criou e dirigiu o projeto Panorama da Palavra, mostra semanal de poesia. Estreou em 1995 com “Pedaço de Mim”. Em seguida, vieram “Margaridas” (1997); “Azul e Sem Sapatos” (1997); “Em Par” (2001); “Sol Sobre o Dilúvio” (2005); “O silêncio das xícaras” (2009); “Alfinetes” (2012).

 

ESGOTAMENTO

As palavras estão exaustas

de escrever contra a guerra

séculos e séculos

O que temos hoje, sem nenhuma trégua?

Guerras e guerras

 

As palavras estão cansadas

Há que enterrá-las

como enterramos os mortos.

Há que esquecê-las

até que chegue

um tempo novo de verdade incólume

e as palavras ressuscitem inocentes

 

SÉCULO XXI

Uma estrela maldosa piscará

uma única vez anunciando:

O mundo acabará como o conhecemos

Dominaremos terra céu e mar

O ar, não – estará rarefeito

Irrecuperável

 

A sede e a chuva ácida

Nos transformarão em horrendas criaturas

A rosnar e trucidar a carne

 

DILÚVIO

as águas cobrem as ruas

arrastando tudo

 

do outro lado junto ao muro

minha mãe. só os olhos

pedem que a recolha

 

tenho força de mil cavalos

e aquela flor

contra a corrente

 

tomo minha mãe nos braços

ela se encolhe

aqueço-a em meu colo

e devolvo-lhe o leite

 

para sempre Argentina

 

com quantos mil lençóis amordaçaram a noite

com quantos corpos cegos sangraram o mar

quantas e quantas noites mal dormidas

suportando passar os vendavais

o último cigarro a espera o rio

calçadas molhadas ossos frios

reflexos nas poças

os olhos de Borges

bandoneón

mar frio

maldita

dura

 

6 DE MAIO
estávamos felizes em pleno domingo 
a certeza próxima do outro 
comida no fogo roupa 
já passada 
casa nem tão limpa 
sapatos num canto 
projetos alinhavados 

a notícia chegou pelo telefone 
apagou o fogo 
separou nossos sapatos 

notícia maior que a vida 

 

MARIA BALÉ (19  ) poeta paulista, é pós-graduada em comunicação corporativa pela PUC - SP, produtora de textos publicitários, fotógrafa e autora de contos.Já foi premiada como escritora e como fotógrafa. É cronista do jornal eletrônico Algo a Dizer . Integra as antologias Damas de Ouro & Valetes Espada, Um e Dois, Sobre Lagartas e Borboletas e Hiperconexões, Realidade Expandida

 

ANIVERSÁRIO

Ainda 

com a placenta 

nas mãos  

punhos marciais

olhos de crepúsculo 

e voz de feitor

a mãe diz:

 

É dada a luz 

Agora vá!

Nascer é todo dia.

 

PUPA

Vestida de cápsula

gesto-me no tempo

 

sem pressa

 

nas vésperas do voo

teço tramas

 

serei asas

 

CLOSET

Como uma roupa de festa

cuidadosamente guardada

cultua a delicadeza

enquanto a força costura seus dias

 

MADRIGAL SEM BANDEIRA

O que mais amo em ti

não é o que pensa

luz que se traduz

o que fala

brisa que refresca

O que mais amo em ti

não é o olhar

remanso para minha culpa

Os braços

prenhes de abraços

O que mais amo em ti

não é o que pulsa

expulsa, exorciza

O que mais amo em ti

não é a boca

de beijos férteis

gozo, inundação

fecundação

O que mais amo em ti

é o renascer de mim

na saliva da tua alma.

 

BIANKA DE ANDRADE(1985) poeta mineira, é graduada em letras e mestranda em teoria da literatura pela UFMG. Já publicou poemas em algumas revistas digitais. Seu livro de estréia é Desejada Dor(2013)

 

BUMERANGUE

As palavras,

lancei-as

ao mundo.

 

O vento,

agressivo,

trouxe-os

de volta.

 

Me golpearam!

 

AMOR IDEAL

Convergimo-nos

irresistivelmente

um para o outro.

 

Todo o resto

é divergência

insuperável.

 

FANTASIA

Eu não quis a minissaia da vitrine.

Eu a quis em meu corpo.

 

Agora que a tenho,

quero suas duas mãos

em toque firme

pressionando minha pele,

em movimento unidirecional,

desde os pés

até as curvas da minha bunda.

 

Desse exato ponto,

quero senti-las vorazes

me puxando

até que nossos corpos

estejam efusivamente

em contato.

 

JOGO DE PREFIXOS

Quero

unir

o inútil

ao agradável.

 

Os que

desejam

o útil

 

fiquem

também

com

o desagradável.


Publicado por Rubens Jardim em 24/08/2017 às 17h25
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
07/08/2017 12h50
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (96ª POSTAGEM)

BEATRIZ AZEVEDO(19  ) poeta paulistana, cantora, compositora, estudou dramaturgia e é mestre em literatura pela USP. Possui carreira internacional, com discos lançados no Brasil, Europa e Japão. Assina parcerias com Augusto de Campos e Hilda Hilst .Publicou dois livros de poemas: Peripatéticos(1996) e Idade da Pedra(2002).

EU SOU A BEATRIZ

eu sou a beatriz

sem dentes

eu sou a beatriz

dândi abundante

eu sou a beatriz

estridente gigante

eu não sou mais

a beatriz de Dante

 

A FLOR AZUL DO SILÊNCIO

apaixonar-se por uma puta

ter o abismo nos olhos

revoltar-se contra a banalidade dos manuais

amar os poetas que se odeiam

sobretudo aqueles que se insultam mutuamente nas rodas literárias

não pertencer a panelinhas

cozinhar as tripas da poesia no caldeirão dos bruxos

namorar o crepúsculo

trair o espelho e o tempo

casar-se com o sol

colher no asfalto a flor azul do silêncio

depois da passagem apocalíptica do caminhão de lixo

perder o trem perder a hora perder a conta

perder o amigo e a piada

mas não perder a esperança nem o humor

não perder a paciência

nem a suprema soberania do amor

 

O MAR

o poeta nada merece o mar

nenhuma palavra desmerece o mar

o homem nada não conhece o mar

mergulha na água sua cabeça não entende o mar

a água do seu corpo não navega o mar

o barco a vela não acende o mar

ninguém nada reconhece o mar

só o mar sabe nadar

o homem no mar imenso nada

penso

o poeta no mar

nada

no imenso

o mundo

nada

mesmo

a mulher nada se oferece ao mar

o mar desconhece o mar

o homem nada se assemelha ao mar

o homem nada nada nada nada nada nada nada nada

não

alcança

o mar

 

ARANHA FUNÂMBULA

aranha funâmbula

tece seu arame

fio de aço com finíssima argamassa de pétala

linha de pluma

aranha astronauta

flutua e salta

estranha entranha de traços

aranha pendurada

prumo pêndulo rasante sem asa

guindaste de ar e nadas

enquanto eu construía a casa

areia tijolo cimento e sol

ela desenhava suas mandalas

se apossava dos cantos

vãos

quinas

esquinas

me olhava com as patas

e desprezava

aranha, fala :

pra que tanta tralha ?

com quase nada

a aranha criava

sua rede de seda e arte

porque sabe

– cedo ou tarde –

parte-se

ROZA MONCAYO ( 1954 ) poeta goiana é também artista plástica. Vive desde os 5 anos em São Paulo. Fez curso de história da arte no MASP,  bacharelou-se em letras e ciências sociais pela USP e foi educadora em escolas públicas. Em 1988 foi para Bélgica, ficou um ano, e quando voltou decidiu abandonar o ensino e dedicar-se inteiramente à arte. Seus poemas já foram publicados pela revista CULT, em abril de 2010.  Publicou seu primeiro livro de poemas - Labirintos da Alma, em 2014, pela editora Patuá.

ORIGEM

Estourar os tímpanos

e libertar a alma.

 

Ouvir com o corpo inteiro

o grito das entranhas.

 

Misturar-se aos sons perfurantes

do encontro absoluto

da baqueta e do couro.

 

Defrontar-se com o início de tudo,

e sentir-se nascendo

do berro e da luz

que te joga no mundo.

 

Ritual de iniciação,

de resistência ----

o som primordial.

 

Resistir,

resistir desde antes.

 

SERIA MAIS FELIZ?

E se eu rasgasse a carne

o ventre

os versos?

Assumisse de vez

o incontrolável

o intolerável

o inadmissível?

 

Sonhos

jorrando do êxtase

a noite virada dia

sexo

todo dia

e os versos?

os versos na carne

nos ossos

no sangue da língua

no sabor quente

do suor

na exaustão do viver

assim

entre versos

e berros

estradas escarpadas

e ranhuras no céu.

 

Se eu assumisse este horror

seria mais feliz?

 

NOMEAR

Nome....

nome do homem

nome das coisas

nome ar.

 

Ar tem nome?

Tem nome sim o ar.

Respiração: o homem na ação de existir

de respirar.

 

Fôlego para correr

ficar

para suportar.

 

Nome do homem para se identificar.

Quem sou?

Sou...

sou João

sou Maria

não

não sei quem sou.

O nome só me nomeia

não diz afinal quem sou.

 

Ah!

que confusão

Quero voltar para o ventre

lá, onde latente sou.

Onde o nome não existe

assim falado

concreto

na boca de todo mundo.

Onde o que sou

está livre da dúvida

porque ainda não se nomeou.

 

Deve haver um lugar

um lugar só meu

sem precisar nomear.

 

UNÍSSONO

Súbita

solidão

soluça

silenciosamente

no cio sem solução

sem sol

----unção.

 

CÁSSIA JANEIRO(1964) poeta paulistana, é formada em filosofia e serviço social. Foi professora universitária e consultora da UNESCO. É secretária-geral da União Brasileira dos Escritores (UBE) Ganhou o Prêmio Mundial de Poesia Nósside (2014)e participou de várias antologias. Publicou Poemas de Janeiro(1999) e Tijolos de Veneza(2004) e A Pérola e a Ostra(2007) finalista do prêmio Jabuti em 2008.

O QUE SOBROU

                 (Para Antonio Candido)

O que sobrou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seus livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças.

O que sobrou foram seus retratos e,

Quando vi uma foto sua, sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

FLOR DE CAMINHO

Há de nascer uma flor de lótus

No meio

Do caminho.

 

Há de nascer uma flor de lótus

Permanente

Para que a gente suporte,

Para que a gente se importe

Com o que está à nossa frente.

 

Há de nascer uma flor de lótus

Permanente

Para que a gente suporte,

Para que a gente se importe

Com o que está escondido,

Longe do nosso umbigo,

Calado numa noite quente.

 

Há de nascer uma flor de lótus que nos lembre:

O caminho do meio não é

O meio do caminho.

 

ABANDONO

Elas esbarram em nós

Com seus chocolates, balas, truques

E limpam nossos para-brisas nos faróis.

Sua infância escorre como aquela

Água suja que vejo no vidro.

Uma moeda qualquer

É a medida do seu valor.

São crianças sem dúvidas poéticas

Ou filosóficas.

Não há Hamlets entre elas.

Não estão entre o ser e o não ser.

Não são.

 

PÉS

Sob meus pés,

Nada –

E esse nada me

Sustém

GABRIELA SILVA(1978 ) poeta paulistana, deixou São Paulo há muito tempo e vive em Porto Alegre. Formada em letras, é  mestre e doutora em teoria da literatura na PUCRS. Professora universitária já ministrou oficinas de criação literária e foi uma das coordenadoras da Breviário cursos, em Porto Alegre. Publicou seu primeiro livro de poemas Ainda é Céu em 2015.

A MÁQUINA QUE SOMOS

Somos essa máquina

de carne, amorzinho,

pernas e braços articulados.

 

Ossos de bom material.

Viscosos, certos líquidos

nos lubrificam, às vezes nos inundam.

 

Somos essa máquina

de reproduzir o mundo,

ou de povoá-lo.

 

Nossas almas,

se enguiçarem,

mandamos a Deus: o criador.

 

Carcaças, ferimos a memória,

dos que fingem não saber

que somos arremedos de qualquer coisa.

 

Somos essa máquina

de torpor, de ânsia,

amor, tédio, ódio.

 

Todas as nossas peças

se encaixam

em comovente perfeição.

 

E por coração

chamamos essa bomba monocórdica

que nos confunde e mantém.

 

DESVÃOS

Perdemo-nos

entre os vãos

úmidos

de nossos dedos.

 

Escapamos

pela nossas pernas

longas

quase velozes.

 

Cegamo-nos

em nossos olhos

exaustos

do mundo.

 

Encontramo-nos

no nosso riso

em vias

confusas, arcaicas.

 

Atravessamos

nossos corpos

tão paredes

entre nós mesmos.

 

É MENTIRA QUE FOMOS FEITOS PARA AMAR

Ainda é céu

 

Que já são horas

de sonhar!

disseram-me.

 

Que já é tempo

de despertar

sussurraram-me.

 

Por ventura

perdi-me

olhando o céu.

 

De nuvens

sob um fundo azul

passei às estrelas.

 

Por descuido

Distraí-me

Do inferno.

 

Ninguém me disse:

Ainda é céu

pra se alcançar.

 

Mas eu sei

que sem despertar

não perco o caminho até lá.

 

OUROBOROS

Se eu te perguntar agora

o que amaste em mim

que poderias me dizer?

 

“Amei o que de ti podia ter

em tempos de guerra e fome.

Amei cada palavra dita

todos os regalos: noite e dia.

Amei o que em ti completava

o ausente em mim mesmo.”

 

Então incomodada com os tempos verbais,

perguntei

por que não me amas mais?

 

“Por que me completaste

e não sou mais enigma.

Por que não és mais o silêncio

da palavra esquecida.

Por que te tornaste eu

quando eu queria ser tu”

 

Já virando o rosto

perguntei com medo

e podes me amar ainda?

 

“Amarei o que em ti

eu sou: nós.

Amarei o que posso ter

tudo e nada ao mesmo tempo

Amo o que em ti é mais vivo:

eu.”


Publicado por Rubens Jardim em 07/08/2017 às 12h50
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