Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
28/04/2009 19h32
CARTA EM HOMENAGEM AOS COMBATENTES DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA

O Instituto Cervantes de São Paulo, situado na avenida Paulista, realizou neste mês de abril, uma série de eventos em comemoração aos 70 Anos da Guerra Civil Espanhola. No dia 1 --que marcou o fim desse conflito bélico de proporções alarmantes --foi inaugurada uma exposição de cartazes que seguiam os preceitos estéticos da arte vanguardista, em especial do construtivismo russo. A exposição era um verdadeiro grito na parede e mostrava a força e a sensibilidade dos artistas envolvidos. Houve também debates, mesas redondas e uma extensa programação de filmes e documentários. E no dia 23, encerrando a programação comemorativa, o Instituto Cervantes abriu suas portas aos poetas, escritores e artistas que puderam apresentar poemas, canções e videopoemas. Entre outros, participaram Alan Mills,(Guatemala) Nurit Kasztelán,(Argentina) Yaxkin Melchy, (México) , Hector Hernandez( Chile), Marília Gabriela, Alice Ruiz, Marcelino Freire,e Rubens Jardim. Na ocasião, li esta carta em homenagem aos combatentes da Guerra Civil Espanhola.


 

A uma milha de Huesca
Sopra o vento que vai roubar teu sonho
E tua luta.
Teu corpo será lançado em mais uma cova, 
Mas a tua Carta do Campo de Batalha a Uma Milha de                                                                            Huesca, 
Ainda está aqui, viva, para provar que este espinho                                                                        sangrento
jamais se apagará da consciência humana.

John Cornford tinha apenas 23 anos, e vestia o 
uniforme das Brigadas Internacionais quando foi                                                              morto
A uma milha de Huesca. 
Alguém poderia perguntar: 
Mas o que faz um jovem poeta inglês 
arriscar a vida nos campos de batalha da Espanha?

Claro que a verdadeira poesia não é adorno, distração, 
                  ornamento interior.
A verdadeira poesia é luta 
                  com a palavra,
com o caos primordial do Verbo,
com a tirania da falsa linguagem 
                                      das palavras batidas e amassadas 
da mesmice enganadora e das falas burocráticas

A verdadeira poesia é uma viagem ao desconhecido. 

A verdadeira poesia é uma arma carregada de futuro. 
É fogo e fumaça. Passatempo e sacramento. 
Punti luminosi. Triunfo e derrota. Porta e abismo. Grito e silêncio. Solidão e intercambio. 
                 Gosto de pão e gosto de sangue.
Caminho solitário que cruza com o caminho de todos.
A verdadeira poesia é sobretudo a tentativa desesperada 
de devolver ao homem sua dignidade.
Por esse motivo é que um jovem poeta inglês foi morrer 
                                                       nos campos de Espanha.
Outros poetas-- jovens ou não-- também entregaram                                                                                                   sua vida 
             pelo sonho de paz e liberdade. 
E toda a poesia é sempre uma manifestação de paz e de                                                               liberdade
E como disse Pablo Neruda: o poeta nasce da paz 
              como o pão nasce da farinha.

E foi o sangue espanhol que fez tremer a poesia daquela época.

Os fascistas espanhóis iniciaram a guerra assassinando 
um de seus melhores poetas: Federico Garcia Lorca em 19 de agosto de 1936
A las cinco de la tarde. Eran las cinco en punto de la tarde.
Las heridas quemaban como soles 
a las cinco de la tarde 
El viento se llevó los algodones 
a las cinco de la tarde
ya luchan la paloma e el leopardo 
a las cinco de la tarde
en las esquinas grupos de silencio 
a las cinco de la tarde 
Quando el sudor de nieve fue llegando 
a las cinco de la tarde
la muerte puso huevos en la herida 
a las cinco de la tarde
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde
Un ataúd con ruedas es la cama 
a las cinco de la tarde
El quarto se irisaba de agonía 
a las cinco de la tarde
Lo demás era muerte y solo muerte 
a las cinco de la tarde
Ay que terribles cinco de la tarde! 
Eran las cinco en todos los relojes! 

60 mil voluntários de 55 países alistaram-se debaixo das bandeiras vermelhas da República. 
Muitos eram poetas, escritores e artistas que nem                                                 sabiam manejar armas
Mas pegaram em armas, alistaram-se 
e foram lutar em defesa da República Espanhola: 
Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Cesar Vallejo, 
Rafael Alberti, Miguel Hernandez, León Felipe, 
George Orwell, André Malraux, Arthur Koestler, 
Octavio Paz, Hemingway, Pedro Garfias, Aragon, 
Willy Brandt, Robert Capa, Simone Weil, 
John dos Passos, Picasso, Bunuel, Pablo Casals, 
Miró, Henry Moore, Rene Magritte, 
Miguel Angel Asturias, Antonio Machado
e até o poeta nacional da Irlanda, Yeats 
e a escritora sueca Selma Lagerlof, já bem velhinhos, manifestaram desejo em ir até Madri participar do Congresso de Escritores Antifascitas. 
Também os brasileiros Apolonio de Carvalho, 
que iria lutar depois na Resistencia francesa 
e o poeta baiano Florisvaldo Mattos estiveram 
nos campos de batalha de Espanha.
Drummond, Bandeira, Vinicius e Murilo Mendes 
também tomaram a defesa dos ideais republicanos.
Mas nada disso adiantou. E em 1 de abril de 1939 
--dia internacional da mentira --o generalíssimo Franco instalou-se, vitorioso, no poder. 
E por lá ficou-- até morrer em 1975.

Hoje, passados 70 anos da Guerra Civil Espanhola,
nos não podemos esquecer de 1 milhão de mortos, 
nós não podemos esquecer de 500 mil exilados 
nós não podemos esquecer de 300 mil detidos políticos.
Não podemos esquecer também que a poesia 
pode ser molestada, chicoteada, arrastada pela rua, 
desterrada, encarcerada, apedrejada
mas nada, absolutamente nada pode sufocar a sua voz 
sempre inadequada e surpreendente, 
sem gaveta ou fichário, voz recem-nascida em um 
                                                              constante descobrir, 
                       em uma insubornável solidão, 
                                                em uma imensa companhia
E é em nome de todas essas coisas que eu, 
                                   Rubens Jardim, poeta menor, venho aqui lembrar que a poesia é um estado de graça,                             um ato de amor do poeta com a linguagem
                      e como todo ato de amor ele une 
                      autor e leitor 
                      ouvinte ou espectador 
                      em uma experiência única. 
Mais ainda: com a sua linguagem primitiva e extrema 
                      a poesia sempre caminhou e caminha 
                      de mãos dadas com o povo 
                      e com a língua.
E pra finalizar é preciso dizer bem alto: 
na Guerra Civil da Espanha 
não foram só os poetas que morreram em pé 
--todos que morreram pelos ideais republicanos 
                      morreram em pé --
                      e com um detalhe
 
                     de cabeça levantada!

 


Publicado por Rubens Jardim em 28/04/2009 às 19h32
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