Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
19/05/2009 10h33
MANUEL BANDEIRA: UM MESTRE NA ESTRUTURAÇÃO DE TEMAS

Quase todos os jovens da minha época -- poetas ou não -- tiveram seus mitos poéticos. Entre eles, pode-se destacar Manuel Bandeira, Drummmond, Vinícius e Fernando Pessoa. Estes dois últimos figuravam, para muitos, como o modelo ideal do poeta e da missão da poesia. Claro que eu não fugi à regra, embora incluísse nessa lista os nomes de Jorge de Lima e Rainer Maria Rilke.
É interessante recordar o papel que a poesia e esses poetas desempenharam na formação de toda uma geração nascida por aqui entre os anos 40 e 50. Lembro-me que Manuel Bandeira, por exemplo, com sua maestria verbal e seus temas cotidianos, sequestrou-me completamente. E seus versos ressoavam em minha mocidade: "a vida inteira que poderia ter sido e que não foi", "eu quero o lirismo difícil e pungente dos bêbados", "vou me embora pra Pasárgada","eu faço versos como quem morre","a paixão dos suicidas que se matam sem explicação", "Recife sem história nem literatura, Recife da minha infância"", "a única coisa a fazer é tocar um tango argentino".
Hoje, após trilhar por esta vereda durante mais de 40 anos, posso assegurar a permanência dessas vozes. Tanto é assim que já publiquei, neste espaço, seletas de versos de Drummond, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, Jorge de Lima, Octávio Paz, Maiacovsky, TS Eliot, entre outros. Mas até agora havia me esquecido exatamente dele, Manuel Bandeira --poeta que, como disse Otto Maria Carpeaux, deixou versos inesquecíveis gravados na memória da nação brasileira.

E conforme explica o crítico Davi Arrigucci Jr.:
"A poesia de Bandeira (..) tem início no momento em que sua vida, mal saída da adolescência, se quebra pela manifestação da tuberculose, doença então fatal. O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e inevitável".

Em 1917 publica seu livro de estréia "A cinza das horas", de nítida influência parnasiana e simbolista. Ainda nesse período fixa-se no Rio de Janeiro, onde escreve poesia e prosa, faz crítica literária e leciona na Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1919 publica a obra "Carnaval". Nessa obra já faz uso do verso livre. Por isso, os Modernistas viram em Manuel Bandeira um precursor do movimento Modernista. Bandeira influenciou tanto os jovens modernistas que Mário de Andrade chamava-o de "São João Batista do modernista brasileiro". Apesar disso, em 1922, por não concordar com a intensidade dos ataques feitos aos parnasianos e simbolistas, não participa diretamente da Semana de Arte Moderna. No entanto, seu poema "Os Sapos", lido por Ronald de Carvalho, provocou reações radicais na segunda noite do acontecimento.

POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

DESENCANTO
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

 
A MORTE ABSOLUTA
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

ANDORINHA
Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

NEOLOGISMO
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternur mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

O BICHO
Vi ontem um bicho
Na imndícei do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

PNEUMOTÓRAX
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

PREPARAÇÃO PARA A MORTE
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
--Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.


Publicado por Rubens Jardim em 19/05/2009 às 10h33
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