Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
23/04/2018 19h19
JORGE DE LIMA, O CASO MAIS APAIXONANTE DA POESIA BRASILEIRA -

Ele foi príncipe dos poetas alagoanos e plebeu do modernismo.Já glorioso no regionalismo, abandonou tudo, a princípio pela aventura supra-realista; em seguida, para ser neófito da poesia religiosa e, por fim, para cair de cabeça no caos. Sua obra é uma espécie de resumo de toda a história literária de seu tempo. Ou como acentuou Otto Maria Carpeaux "é Jorge de Lima o único poeta contemporâneo do Brasil cuja obra acompanha e evidencia todas as fases da evolução da poesia brasileira moderna." 
Tenho um e-book disponível para os interessados.Chama-se Jorge,80 Anos e o link está logo aí embaixo.É grátis.O original foi feito em mimeografo e foi o pontapé inicial do Ano Jorge de Lima,movimento que tive a honra de iniciar e produziu resultados que nem eu esperava. Um poeta relegado ao esquecimento voltou a ser publicado e em 1975 foi até samba-enredo da Mangueira. 
Por enquanto, leia este poema maravilhoso e antológico.

https://rl.art.br/arquivos/198687.pdf?1244516286

O NOME DA MUSA

Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida,
nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras,
nem de astros, nem de flores.
Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés
e influir nas coisas oscilantes.
Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas,
sei que não é o vento que bole mas tu que passas com os cabelos soltos.
Amo contemplar-te nos cardumes das medusas que vão para os mares boreais,
ou no bando das gaivotas e dos pássaros dos pólos revoando sobre as terras geladas
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida.
O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos,
nos areais movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar,
no ar lavado que sucede as grandes borrascas,
na palavra dos anacoretas que te viram sonhando
e morreram quando despertaram,
no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu.
Em todos esses movimentos há apenas sílabas do teu nome secular
que coisas primitivas escutaram e não transmitiram às gerações .
Esperemos, amigo, que searas gratuitas nasçam de novo,
e os animais de criação se reconciliem sob o mesmo arco-íris
então ouvireis o nome da que não chamo Eva
nem lhe dou nenhum nome de mulher nascida.

( Jorge de Lima-23 de abril de1893/15 de novembro de 1953. Nas fotos: eu na casa onde Jorge viveu em Maceió; Carlos Méro, escritor e presidente da Academia Alagoana de Letras;a poeta Arriete Vuilela; e encontro com o poeta Adriano Nunes, em Maceió)


Publicado por Rubens Jardim em 23/04/2018 às 19h19
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