Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
09/06/2022 15h18
A POÉTICA DA DESOBEDIÊNCIA E O INTERTEXTO NOS ESCRITOS DE RUBENS JARDIM

Na mochila ou na valise

a rigidez das fronteiras

é uma ordem. Desobedeça!

Rubens Jardim

 

COM AFETO E SEM FRONTEIRAS

Invisível nas asperezas do campo do mercado financeiro, a poesia – indo aonde não é chamada – escava espaços, tempos e dizeres advindos do onirismo e da realidade imediata. Muitas vezes, tangencia o delírio. Seus caminhos não se repetem; não se agarram ao limbo repetidor de ordens. Ver, ouvir, dizer e sentir o que nunca foi visto, ouvido, dito ou sentido, eis a função do eu-poético, seguindo percursos da poiesis – dos jogos inventivos do poema − que se iniciam no arcaísmo da imaginação. Em esquiva de modelos e paradigmas, o poeta escava os meandros da antelinguagem, para conhecer e trazer ao mundo dos sentidos matérias e visões próprias do universo anímico.

 

Na obra poética de Rubens Jardim, percebo essa disposição do eu-poético percorrendo uma grande variedade de temas e olhando o mundo de modo libertário, ao realizar entrelaçamento de estratos poéticos e éticos. Desse modo, ele insere a poesia num complexo imagístico-simbólico-ideativo que, a partir da antelinguagem, inaugura ou recria a linguagem, ao percorrer o mundo do afeto, através de espaços e tempos imagísticos inscritos em sua poesia e no trabalho de outros escritores com quem se põe em diálogo.

 

Voltada para a alteridade, a poesia de Rubens Jardim nos faz vivenciar misteriosos sentidos trazidos à práxis no cotidiano. Suas imagens do amor nos conduzem aos impulsos do amar; nos caminhos da solidão, percebemos veredas que nos cercam e sufocam, então temos vontade de mudar esse estado de coisas; nos meandros da solidariedade, somos chamados a participar da vida no plano coletivo.

 

Em 2021, numa live organizada pelo Canal do Poetariado, em homenagem a Rubens Jardim, eu lhe disse que gostaria de escrever um texto sobre sua poesia. Uma semana depois, o poeta me enviou por e-mail os seguintes escritos: Carta ao homem do sertão; Fora da estante; Jorge de Lima, 80 anos; Antologia de poemas inéditos; Homenagem ao poeta Lindolf Bell; Diálogos. Seus trabalhos favoritos? Não importa o motivo da seleção. E, em sendo muito mais extensa a produção literária do autor, não me seria possível no espaço deste texto abordar todos os escritos. Então, impulsionada pelo afeto, aos textos recebidos pela internet, anexei mais dois títulos: Mulheres poetas na literatura brasileira; Cantares da paixão.

 

Conheço quase toda a obra poética de Rubens Jardim. Por isso, ao escolher um elo que percorresse seus escritos, segui veio ideativo e traço estilístico próprios da sua produção literária. Quanto ao veio ideativo, orientei-me pela desobediência e seu convincente chamamento a desconhecer a imposição das fronteiras. É uma questão de vida; uma definição de modo de vida, em oposição ao mando autoritário. Quanto ao estilo, enfoquei a recorrência ao intertexto, que igualmente perpassa toda as suas obras e se dispõe ao dialoguismo, isto é, enseja a possibilidade de escuta da fala que não a do próprio Rubens Jardim, com afeto e sem fronteiras.

 

 

A DESOBEDIÊNCIA

Relendo os escritos mencionados, localizei a desobediência como ponto norteador do pensar e do atuar de Rubens Jardim, com vistas a defender a liberdade dos humanos. Por isso a escolha da epígrafe, que me faz sublinhar o seguinte fato: não se trata da liberdade no sentido romântico e ou utópico. Percebo em sua obra literária o enfoque libertário como determinação da possibilidade de cada indivíduo realizar escolhas que se iniciam na prática dos Direitos Humanos, no dia a dia. Trata-se de desconhecer limites espaciais e sociais impostos de modo hierárquico, ao convidar o leitor a andar pelas ruas, ouvir, opinar e ser ouvido. Enfim, viver.

 

Oriundo da Geração 60, período em que se propôs a combater a truculência da ditadura militar, Rubens Jardim – seguindo metas humanitárias − até hoje se mantém fiel aos princípios emancipatórios no âmbito da coletividade. Nesse amplo espectro do ser livre e do existir em liberdade, o eu-lírico e o eu-indivíduo têm algo em comum: a irreverência. Na epígrafe, o desobedeça sinaliza a escolha da vida plena, o acolhimento do outro. Seu pensamento, seus atos e escritos convergem numa luta contra as desigualdades sociais.

 

Observe-se que, no cotidiano e na escrita, a vida plena transcorre na dimensão poética, opondo-se à necropolítica operante nos nossos dias. Resistir é preciso. A vida plena pode ser o objetivo de todos no dia a dia. Quem foi que disse que a poesia tem que viver nas alturas? Nesse sentido, torna-se relevante destacar duas estrofes de um poema que tematiza sua meta libertária em que o eu-poético e o eu-indivíduo, mais uma vez, se fazem espelho um do outro na desobediência ao status quo, que se marca pela arbitrariedade do poder:

 

[...] Não vim para me resguardar

ou resguardar minha poesia.

Vim para revelar que o poeta

não ficará de braços cruzados

 

porque nós ainda acreditamos no mundo novo

nós ainda construiremos o mundo novo!1

 

Na poesia de Rubens Jardim, o desobedeça não é um imperativo, mas um chamamento à participação no campo social e incentivo à reflexão sobre os destinos dos humanos, rumo a mudanças que resultem num mundo novo. Os princípios e o alcance desse chamamento opõem-se a tudo aquilo que se refere à morte e, também, à carapaça dos rinocerontes soltos pelas ruas das cidades, que, assim como na peça de Ionesco, aceitam tudo o que lhes é imposto pela força bruta ou branda, essa que, com garras de lobo, se disfarça de cordeiro. Realizando uma poética da desobediência, Rubens Jardim recorre ao intertexto – citações e outros referenciais − para intensificar nos seus escritos o estrato poético-ideativo de cunho libertário.

 

 

O INTEXTEXTO

Genericamente, o intertexto pode apresentar-se como citação de texto literário ou até mesmo discursivo, mas pode surgir de outras formas, como referência a outras artes e a outras formas culturais. Pode, inclusive, surgir como referência a algum aspecto da sociedade, a fatos históricos, políticos etc., e até como referência a lugres. Do ponto de vista estilístico, seja no escrito poético ou no ficcional, o intertexto caracteriza-se como alusão direta ou indireta, que pode revelar negação ou aceitação de algo, dando ao texto diversidades semânticas convergentes no ideário do autor, de modo poético.

 

Na obra de Rubens Jardim, os sentidos da desobediência são estilisticamente revelados pelo intertexto. Esses referenciais voltam-se para a consagração de grandes momentos de passagens literárias e filosóficas, leituras de obras de arte, memória e fundação de lugares do afeto, contendo a ideia de transformação, dinamismo da vida, solidariedade, em que a resistência se faz ponto nodal. Trata-se de resistir a todas as formas de opressão, como veremos nos textos que me foram enviados pelo poeta.

 

 

Em Carta ao homem do sertão, realizando um longo inventário do interior e de suas gentes, Rubens Jardim criou um longo intertexto relativo a Grande sertão: veredas, aludindo a lugares e personagens, numa homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Visitando trechos desse romance e fragmentos de escritos de outros autores, Rubens Jardim desbrava o sertão, visto como parte de Minas Gerais e território do mundo, onde o ermo se abre ao caminhante do encantatório. Tão logo iniciada a leitura, o autor ressalta a presença marcante de Diadorim, a partir da sonoridade do nome:

 

Eu não sou de Cordisburgo, nem Rio

Baldo. Também não sou Dia,

Diá, Di, Dor, In.

Não sou personagem

nem persona

de nenhuma

das tuas estórias. [...]2

 

Privilegiando o poético, Rubens Jardim apresenta nesse livro montagem de imagens visuais e de trechos de outros autores que homenagearam Guimarães Rosa. Nosso poeta nos deixa entrever que, em Grande sertão: veredas, entre o regional e o planetário, o homem se faz mistério em busca de si, querendo saber se o demo existe mesmo. Desenhando veredas através de uma carta-poema, emerge um monólogo posicionando Rubens Jardim no meio do sertão: palco de onde fala a Guimarães Rosa e ao mundo.

 

Na fala de Rubens Jardim, o intertextual entrelaça trechos poéticos e filosóficos, embasando seu pensamento poético, ao aludir à amplitude do sertão, em meio ao mundo e dentro do mundo. O mundo se revela sertão habitado e desabitado, à espera de um leitor que perceba diferenças e parecenças entre a solitude do agreste e a da urbe. Nesse trabalho, ressalto ainda a reprodução de fotografias e textos históricos referentes ao tema, o que acrescenta ao escrito caráter de pesquisa sobre o autor de Grande sertão: veredas.

 

Enfatizando os espaços geográfico e social, e ressaltando belezas e asperezas do lugar, o poeta destaca a resistência do sertão e a persistência da vida, como atos de desobediência às forças que os cercam. Assim como Ribaldo, Rubens Jardim descobre que o demo não existe. Se o que existe é o homem, a desobediência acena para a transformação das veredas mundo afora. Eis o grande não dito de Guimarães reafirmado pela poesia de Rubens Jardim.

 

 

À escrita de Fora da estante, Rubens Jardim se lança ao intertexto, a partir do conhecido poema de Drummond intitulado A flor e a náusea, dando destaque ao verso: “Que tristes são as coisas, quando consideradas sem ênfase”. Ao enfatizar a vida e o sentimento, nosso poeta compõe versos que, de modo implícito e explícito, se referem ao mundo enfocado sob os desígnios do capitalismo e do poder econômico reificando os humanos.

 

Nessa mesma obra, Rubens Jardim igualmente relembra poetas e filósofos, que também optaram pela desobediência, para dar vida às coisas neutras ou àquelas assinaladas só por valores financeiros, que nos cercam de modo inexorável. E, assim, nosso poeta segue mundo afora em viagens feitas ao exterior. Entre muitos exemplos dessa perplexidade ante as coisas vistas sem ênfase, a poesia de Rubens Jardim enfoca sua visita à Grécia, onde − ao buscar a fábula − encontra lugares circundados pelo capitalismo. Ao chegar a Santorini, em meio ao mundo monetizado, o poeta subsome voz interrogativa, tal como se perguntasse sobre os seres encantados: Ubi sunt? Onde estão as ninfas? Os sátiros? Onde está a Filosofia? Eros? Onde a imaginação para transformar o mundo?

 

 

 

Na obra intitulada Jorge de Lima, 80 anos, escrito que rememora os 80 anos de nascimento e 20 anos da morte do poeta, Rubens Jardim apresenta verdadeiro ensaio poético, conduzindo uma biografia afetiva, que envolve encadeamento de trechos de entrevistas, como se Jorge de Lima narrasse sua própria vida. Sob esse enfoque, inscrevo aqui intertexto de minha autoria: ressalto que, sob o ângulo ideativo, Jorge de Lima voltou-se para a crítica do sistema de aparências que envolve a vida em sociedade. Entre vários exemplos, note-se que o autor de Invenção de Orfeu é também autor do poema de inspiração surrealista intitulado O grande desastre aéreo de ontem, em que tematiza a morte e, através da metapoesia, revela a imagística da alienação:

 

Chove sangue sobre as nuvens de Deus.

E há poetas míopes que pensam que é o arrebol!3

 

Jorge de Lima foi também um poeta inovador dos modelos temáticos comuns à sua época. O grande circo místico mostra espécie de estranhamento relativos aos costumes consagrados em seu tempo, por isso posso dizer que há certa afinidade ideativa entre ele e Rubens Jardins pela desobediência.

 

Nessa homenagem póstuma, o intertexto colhe a palavra poética a partir dos poemas escritos por Jorge de Lima na infância e completa-se com reproduções de fotos e reportagens sobre esse autor, numa pesquisa apoiada no profundo conhecimento literário de Rubens Jardim, o que lhe permitiu citar textos sobre a vida de Jorge de Lima. Aprofundando o teor intertextual desse escrito, o autor incluiu o poema “Recitativo próximo a um poeta morto”, de Cecília Meireles, em que a poeta homenageia esse autor, por ocasião da passagem de duas décadas de sua morte.

 

 

 

Em Antologia de poemas inéditos, nosso poeta segue vários rumos; aproxima-se da saudade, do amor, da vida, da solidão; enfoca viagens, lugares do afeto e rememora com ênfase a casa da infância. Nesse escrito, o intertexto vai ao universo da arte de Bernini, de Michelangelo e de outros artistas, num simbolismo que se completa nas imagens de outros poetas, entre eles João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima. Abrindo-se à paisagem do mundo das viagens, aqui o intertexto alcança lugares visitados por Rubens Jardim, na Itália e na França. Nessa obra merece destaque a desobediência libertária revelando-se metapoesia, no poema denominado Travessia:

 

Prefiro a palavra que inaugura

um espaço novo na mente

do leitor. Aquela que o arranca

do torpor e o faz embarcar no trem,

na carroça, no ônibus ou avião.

A palavra que o arranca do chão

ou da poltrona. No poema a palavra

é travessia. Por isso, venha comigo

 

Vamos descarrilhar esse trem.4

 

No poema citado, o poeta identifica padrões convencionais que levam os humanos e o mundo à imobilidade. Na travessia da palavra – na passagem da antelinguagem ao verso −, através da metáfora, Rubens Jardim põe em relevo a força dos não ditos intuídos nas decifrações do leitor, que é convidado a participar no descarrilhamento, ou seja, a posicionar-se em desvio do marasmo da fala repetida e das coisas vistas sem ênfase. Aqui, a travessia se torna senha para atingir o poético.

 

 

No escrito intitulado Homenagem ao poeta Lindolf Bell, caracteriza-se um longo e significativo intertexto que se inicia com a apresentação de um poema do próprio homenageado. Ainda que mencionando vários outros poetas, cujos textos se expandem num extenso diálogo com Lindolf Bell, a homenagem registrada por Rubens Jardim revela-se, em verdade, longo monólogo poético em torno da vida e da poesia de Bell.

 

Tal escrito centraliza a relevante participação de Lindolf Bell na chamada Catequese Poética. Vinculado à Geração 60, esse movimento – no qual Rubens Jardim teve grande participação – acentuou naquele tempo a magia do poético em seu alcance político e ético, buscando derrubar fronteiras. E, assim, catequese, palavra advinda do verbo grego, que se refere “ensinar através da fala”, ganhou caminhos da transmissão oral no momento em que a poesia ensejou posicionamento libertário diante da ditatura militar, um posicionamento emancipatório que deixou lastro relevante nos dias atuais.

 

Nessa Homenagem ao poeta Lindolf Bell, Rubens Jardim enfatiza a pujança da palavra poética transmitida pela voz, pelo som, pelo ritmo, ao atrair o público por meio do fascínio das figuras de linguagem trazidas às ruas e às escolas. Nesse movimento de transformação do pensar e do atuar, a desobediência até hoje resiste à opressão e se fundamenta no diálogo aberto a todos.

 

 

Em Diálogos, Rubens Jardim menciona o tempo da adolescência, quando se deu sua iniciação à poesia. Bem acompanhado por poetas de várias épocas e estilos, aqui o intertexto se faz amplamente explícito em suas conversações, ao dialogar com um poema de outro autor. Como a poesia imortaliza e atualiza temas e imagens, Rubens Jardim rememora Manuel Botelho de Oliveira, com quem dialoga e, em lirismo, tematiza Anarda, em um dos poemas desse escrito. Note-se que a imagem de Anarda ressurgirá em outros poemas – de autoria de Rubens Jardim − que constam de Cantares da Paixão e, certamente, Manuel Botelho de Oliveira se orgulharia de assiná-los, se vivesse nos dias de hoje.

 

Dando continuidade às travessias da antelinguagem aos enunciados poéticos, nosso poeta rememora junto a Ezra Pound certos detalhes do universo classe A, numa viagem de avião. Visitando Mário de Andrade, ele se lança às imagens do Tietê, para constatar mudanças no rio e na cidade através dos tempos. Ampliando tais conversações, Rubens Jardim entra na interlocução de Maiakovski com o fiscal de rendas e, junto com João Cabral de Melo Neto, dispõe-se à decifração do canto dos galos. E, ouvindo Serguei Iessiênin, opta pela vida ao disparar “o gatilho da palavra”.

 

Nos Diálogos, Rubens Jardim visita poetas de vários estilos até chegar à contemporaneidade, quando, ao exaltar a relevância da voz feminina, troca poemas com várias poetas contemporâneas. Sempre voltado para questões do afeto e da coletividade, Rubens Jardim focaliza o amor erótico e o sentimento de fraternidade, ao visitar lugares e acontecimentos. E, assim, entrelaça versos que envolvem outra vez A flor e a náusea, de Drummond:

 

[...]

Sem ênfase

Ninguém salva as Flores

Do Mal. Nem as Cinzas

Das Horas.5

 

Reunindo nesse escrito múltiplos referenciais temáticos e intertextuais, o poeta expande seu ideal de liberdade em âmbito mundial e para isso inclui, nesse escrito, poemas exaltando a Revolução dos Cravos e a Guerra Civil Espanhola, que, numa leitura atual, nos fazem refletir sobre o fascismo hoje.

 

 

MEU INTERTEXTO

Além das obras que me foram encaminhadas pelo poeta, acrescentei duas outras, que, por impulsos intimistas, constituem intertexto explícito dirigido à poesia de Rubens Jardim: Mulheres poetas na literatura brasileira e Cantares da paixão. Note-se que Mulheres poetas na literatura brasileira realiza o mais extenso intertexto do poeta – grande diálogo com o feminino – em que o organizador da publicação apresenta a poesia escrita por mulheres a partir do século xix, passa pelo século xx e abrange nossos tempos. Numa primeira etapa, os poemas foram publicados, semanalmente, no blog de Rubens Jardim. Pouco depois, foram reunidos numa antologia virtual, em três volumes. E, em 2021, veio a público a edição de um volume impresso, uma vez que, por motivos vários, o organizador não conseguiu autorização de inúmeras poetas e ou de parentes, para a publicação.

 

Tenho a alegria de ver poemas meus nessa antologia, além de ser autora do prefácio ao volume III da publicação virtual. Importante ressaltar que, ao escolher os poemas, Rubens Jardim não se rendeu às referências e escolhas das grandes mídias nem aos nomes consagrados pela crítica oficial. Seu espírito de pesquisador conduziu-se pela escolha das mulheres poetas de várias épocas, sob o ângulo da escrita. Nessa obra, o poeta deixa transparecer projeto político fundamentado na igualdade, quanto ao direito à escrita, à expressão livre, à palavra como desvelamento. E ato libertário.

 

Ao ouvir e valorizar a voz feminina a partir da poesia, e além dela, Rubens Jardim mostra-se desobediente a padrões que, através dos séculos, tentam calar a voz feminina. Por isso, no prefácio ao volume III, assinalei: “Não podemos esquecer que, numa extensão planetária, as mulheres foram por muito tempo alijadas dos processos de aprendizado escolar, das decisões de alcance coletivo e, até mesmo, impedidas da realização das aspirações íntimas. Ainda hoje, por motivos vários, e em muitos lugares e circunstâncias, elas não alcançaram de modo pleno tais direitos.”

 

 

Por fim, minha visita a Cantares da paixão, obra de 2008, que reúne poemas inéditos; alguns outros já publicados à época da edição e, ainda outros, que, no futuro, ganhariam nova publicação. Articulando a palavra à visualidade, o poeta atinge desdobramentos no âmbito dos vários gêneros poéticos; ainda que se mantenha fiel ao dizer em primeira pessoa, o eu-lírico abrange e tonaliza certas dicções épicas e trágicas, ao longo dos poemas. Entre os cantares e a paixão, entram em cena inúmeras formas de intertexto, incluindo a interação com a imagem visual, seja como ilustração, seja na consecução do poema visual, em suas várias experiências formais, ao lançar-se à procura das raízes do verso:

 

E eu fico aqui me perguntando

onde está a palavra antes da palavra?”6

 

A palavra antes da palavra”, como a deseja Rubens Jardim, eis a instância da antelinguagem regendo sua poesia. Em minha leitura de sua obra poética, sinto-me à flor da pele do impulso originário do sentir. Por isso, aderindo à poética da desobediência, vivencio nos poemas de Rubens Jardim o intertexto a articular aspectos poéticos e éticos na expressão da poesia como práxis emancipatória, em que o poético envolve a alteridade. Falar e ouvir o outro. E esse outro é coletivo: o conjunto dos habitantes da Terra.

 

Em certo sentido, em Cantares da paixão, o poeta exalta os humanos do ponto de vista do corpo, do corpo que se põe em ação para viver a vida plena, do corpo atuante no dia a dia, do corpo que necessita de alimento. E de poesia. No conjunto dos poemas cantados pela paixão ou nascidos da paixão, Rubens Jardim desenha, de modo implícito e explícito, a imagística do corpo como foco de desobediência aos desígnios da morte, através de imagens visuais e figuras de linguagem. Da morte, invisível foice, só sabemos os efeitos. E, assim, através do ato de alimentar o corpo, o poeta sonoriza verdadeira homilia poética tematizando de modo simbólico o provimento do pão e a continuidade da vida:

 

Eu duvido da vida

da vida devida

da dívida

da di vi sa

 

Deve Davi

dever a vida?

 

Não,

não dou ouvido

ao vidro da vida

 

Eu di vi do a vi da

E dou o pão

di vi di do7

 

Nesse poema, entre inúmeros outros tropos, em “vidro da vida” localizo a metáfora possível de aludir a várias dimensões da morte a serem superadas pelo ato de compartilhar o existir e o pão. E nada devemos, nem Davi. Sei que uma figura de linguagem não se traduz em palavras, mas seu substrato conduz-se pelo sentimento advindo da antelinguagem, que chega aos versos − numa sutil e tenaz desobediência – desafiando os poderes que anunciam e antecipam a morte daqueles que não possuem conta bancária. Mas ressalto: a par dessa interpretação, o sentido poético não se esgota nessa leitura. E permite vários outros desdobramentos simbólicos.

 

Tudo que pudesse ser dito sobre Cantares da paixão seria supérfluo, diante desse conjunto de poemas de formatação diversa, incluindo o soneto, em meio a formas modernistas e contemporâneas, ao que se soma o alcance do visual, seja como ilustração, como intertexto ou estrutura poética. Percebo, nesses Cantares, intensidade da vida e sobrevivência poética do corpo atuante, em sua grande oposição à morte, tal como Rubens Jardim expressou no seguinte poema que se constitui indagação intimista e solidária:

 

Mas como

como explicar este corpo

que é a única coisa que me pertence

e que não me abandona

e que carrego 24 horas por dia

incansavelmente nestes 37 anos.

Corpo que é meu retrato

no álbum de família

minha identificação

e única forma que tenho de estar aqui

e não em outro lugar.

Corpo que é meu limite

minha margem

minha transitória presença no mundo.

Corpo que já coube num abraço

num berço

e que certamente vai caber num caixão

vai caber

como a última roupa vestida às pressas

vai caber

como o último sapato vai caber

como vai caber tudo aquilo que nunca coube

e nunca teve cabimento.

Corpo que é minha represa

meu olho-d’água

e que vai secar como o fundo de um rio

do Nordeste

como um cachorro atropelado

num dia de sol quente

ou como o molho de macarrão que aqueceste

no fogo.

Esqueceste?

Mas como esquecer

este fogo irrompendo de uma panela

em uma cozinha

dentro de uma casa

junto de uma família

e que ainda hoje está aqui

queimando

como o pavio de um lampião que acaba

de arder

que acaba

como a luz acaba dentro de um corpo

quando ele acaba

quando ele

quando?8

 

Fazendo minhas as indagações do poeta, acrescento: como falar sobre a poesia de Rubens Jardim? Como explicar o indizível? Como dizer da sutileza das imagens, dos ritmos e da musicalidade dos versos? Como expor as aventuras da vida em nome da liberdade da espécie humana? Diante desse impasse, para concluir este escrito, transcrevo um poema de minha autoria − Enigmas e cantares − lido por ocasião do evento “Gente de Palavra”, em homenagem ao poeta, em 2019. Em resposta a suas perguntas, inicio pelos seus versos que escolhi como epígrafe:

 

Enigmas e cantares9

 

Mas como
como explicar este meu corpo [...] ?”

Rubens Jardim

 

 

Não me perguntarei pelo teu corpo.

Mas como
como não me perguntar
sobre teu sentimento
sem margem e sem limite
explodindo o fôlego do poema?

Não me perguntarei pelo teu corpo.


Mas como
como não me perguntar
pelo arremesso da palavra gerando
o alimento na panela?


Como não me perguntar pelas chamas
dançando na cozinha ao preparo do teu verso?


Como não me perguntar pelo enigma
da lâmpada iluminando o sol
na véspera do teu poema?

Tudo que me perguntei
sobrevive naquilo que desconheço:
enigma da paixão sonâmbula
despertando teus cantares.


Por isso
não me perguntarei pelo teu corpo.

Tua poesia me basta.

 

Teu corpo, tua poesia.

 

 

 

Através desse poema, lanço-me ao intertexto, para sentir a poesia de Rubens Jardim, naquilo que se revela fundamental: a vida plena. E a poética da desobediência, ao alcance de todos, para viver a vida plena.

 

<<<<<<<<<<<<>>>>>>>>>>>>

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

CARVALHO, Cesar Augusto de (Org.). Rubens Jardim. São Paulo: Patuá, 2019 .

 

JARDIM, Rubens. Carta ao homem do sertão. Blog de Rubens Jardim. São Paulo, 2007. Disponível na internet em: https://rl.art.br/arquivos/507267.pdf?1528125713

 

----------------------. Fora da estante. Coleção poesia viva. Centro Cultural. São Paulo: São Paulo, 2012. Disponível na internet em: https://rl.art.br/arquivos/5399098.pdf

 

----------------------. Jorge de Lima, 80 anos. Criação, pesquisa, seleção de textos, montagem, projeto gráfico, editorial e notas de Rubens Jardim, Ed. 2, São Paulo: 1973. Disponível na internet em: https://rl.art.br/arquivos/198687.pdf?1244516286

 

----------------------. Antologia de poemas inéditos. Edição do autor: São Paulo, 2018. Disponível na internet em: https://www.rubensjardim.com/blog.php

 

----------------------. Homenagem ao poeta Lindolf Bell. Disponível na internet em: https://www.rubensjardim.com/blog.php

 

------------------------. Lindolf Bell – 50 anos de Catequese Poética. São Paulo: Patuá, 2014.

----------------------. Diálogos. Disponível na internet em: https://www.rubensjardim.com/blog.php

 

----------------------. Cantares da paixão. JARDIM, Rubens. Cantares da paixão. São Paulo: Manuela Editorial (Arte Paubrasil), 2008

 

----------------------. Mulheres poetas na literatura brasileira, vol. 1, vol. 2 e vol. 3. Edição virtual, 2018. Disponível na internet, respectivamente, em:

https://issuu.com/rubensjardim/docs/livro_mulheres_poetas_a1

https://issuu.com/rubensjardim/docs/livro_mulheres_poetas_volume_2_final

https://issuu.com/rubensjardim/docs/livro_mulheres_poetas_volume_3_final

 

---------------------. Mulheres poetas na literatura brasileira. Arribaçã: Cajazeiras, 2021.

 

1 JARDIM, Rubens. Cantares da paixão. São Paulo: Manuela Editorial (Arte Paubrasil), 2008, p. 21.

2 JARDIM, Rubens. Carta ao homem do sertão. Blog de Rubens Jardim. São Paulo, 2007. Disponível na internet em: https://rl.art.br/arquivos/507267.pdf?1528125713

Obs. Nota número 2, no original de Rubens Jardim, citação do texto do professor José Carlos Garbuglio sobre o nome “Diadorim”.

3 LIMA, Jorge. O grande desastre aéreo de ontem. Disponível na internet em https://www.escritas.org/pt/t/6594/o-grande-desastre-aereo-de-ontem

4 JARDIM, Rubens. Antologia de poemas inéditos. Edição do autor: São Paulo, 2018. Disponível na internet em https://www.rubensjardim.com/blog.php

 

 

5 JARDIM, Rubens. Diálogos. Disponível na internet em https://www.rubensjardim.com/blog.php

 

 

6 JARDIM, Rubens. Cantares da paixão. Op. Cit., p. 28.

7 Ibidem. Idem, p.22.

8 ----------------------. Cantares da paixão. JARDIM, Rubens. Cantares da paixão. São Paulo: Manuela Editorial (Arte Paubrasil), 2008, ps. 132-133.

 

9 CARVALHO, Cesar Augusto de (Org.). Rubens Jardim. São Paulo: Patuá, 2019, página não numerada.


Publicado por Rubens Jardim em 09/06/2022 às 15h18
 
31/07/2020 19h39
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA

PROCURO HERDEIROS, AMIGOS E FAMILIARES DESTAS POETAS POIS PRECISO DE AUTORIZAÇÕES PARA PUBLICAR ALGUNS POEMAS NAS ANTOLOGIAS IMPRESSAS

.(a imagem é dos 10 exemplares que imprimi pra mim)

Sei que será muito difícil conseguir autorizações de poetas que morreram e não estão ainda em domínio público. Caso de Colombina, Cora Coralina, Gilka Machado, Henriqueta Lisboa,Cecília Meireles, Adalgisa Nery,Helena Kolody, ,Mariajosé de Carvalho, Stella Leonardos,Ilka Brunhilde Laurito, Helle Alves, Celina Ferreira, Ida Laura, Zila Mamede, Iracy Gentili, Zulmira Ribeiro Tavares, Hilda Hilst, Lupe Cotrim Garaude, Ivete Tannus, Marly de Oliveira, Helena Armond, Orides Fontela, Isabel Câmara, Reni Cardoso, , Lucila Nogueira, Ana Cristina César, Hilda Machado,. Agradeço quem puder me ajudar nessa busca. Mas já recebi a concordância de familiares de Jacinta Passos, Carmen Silvia Presotto..Dora Ferreira da Silva, Eunice Arruda, Myrian Fraga, Olga Savary, Helena Ortiz e Tânia Diniz.

 


Publicado por Rubens Jardim em 31/07/2020 às 19h39
 
22/06/2020 11h14
ELEGIAS NASCEM ENTRE DESESPERO, ÊXTASE, CONSÔLO E AMPARO

ELEGIAS DE DUINO: UM DOS LIVROS MAIS IMPORTANTES DA MINHA VIDA – Há 92 anos, num dia 13 de fevereiro, essa coletânea de dez poemas de Rainer Maria Rilke foi publicada, em Leipzig, Alemanha. Considerados como um dos mais importantes exemplos de lirismo no século 20, os poemas que compõem o livro foram iniciados no Castelo de Duino, perto de Trieste, onde Rilke morou, entre 1910 e 1912, a convite da princesa Maria von Thurn und Taxis, sua amiga e mecenas. E o poeta só terminou o livro em 1922, dez anos após tê-lo iniciado, no Castelo de Muzot, posto a sua disposição por um amigo: Walter Reinhart. O tema central das Elegias de Duino é o mistério do homem e de seu destino. Algo que não tem nada a ver com a pressa e a superficialidade dos tempos atuais de fast food. Aliás, Maria João Cantinho faz uma pertinente observação, citando Rilke, Eliot e Trakl: “Têm uma digestão lenta e complicada e não nos deixam em repouso com o mundo. Não são poetas que celebrem a alegria de viver, o sucesso, os dias felizes que hão-de vir, mas sim poetas que atravessam escombros e ruínas, para aí descobrirem a miséria e a sublime grandeza da alma humana, redescobrindo um esplendor essencial. São poetas que obedecem ao seu instinto, que é o de devolver por inteiro a humanidade ao homem, reinvestindo-o da sua dimensão essencial e, por isso mesmo, trágica. São os poetas da solidão e do desamor, do desamparo, da escuridão.”
Numa carta em que responde às questões "incômodas" do seu tradutor polaco, Rilke escreve assim (citação extraída do prefácio de Maria Teresa Dias Furtado):
“E sou eu que tenho de dar a verdadeira explicação das Elegias? Elas ultrapassam-me infinitamente. Considero-as um aperfeiçoamento na sequência daqueles pressupostos essenciais já presentes no Livro das Horas e que em ambas as partes dos Novos Poemas se servem experimentalmente de uma imagem do mundo, vindo a concentrar-se de modo conflituoso nos Cadernos de Malte em que voltam a confrontar-se com a vida e aí quase demonstram que esta vida suspensa no abismo é impossível. Nas Elegias, e partindo dos mesmos dados, a vida volta a ser possível [...] A afirmação da vida e da morte constitui uma única e mesma coisa nas "Elegias" [...]
Para celebrar esse poeta que me acompanha desde a juventude, divulgo a primeira elegia que abre o livro e foi escrita quando o poeta, após receber uma carta sobre um assunto desagradável, saiu para passear nas proximidades do Castelo. Foi nessa caminhada que Rilke—vocacionado a crer em visões, premonições e advertências telepáticas situadas além das fronteiras do real – “ouviu a voz do vento chegar no verso de abertura da primeira elegia. Pouco tempo depois, a segunda elegia também estava escrita.Trechos de de outras nasceram do mesmo modo assim como outros fragmentos. Mas vamos deixar de interpretações e vamos ao que interessa mesmo:
Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria?
E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração,
aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte.
Pois que é o Belo senão o grau Terrível
que ainda suportamos e que admiramos
porque, impassível, desdenha destruir-nos?
Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro.
Ai, quem nos poderia valer?
Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo neste mundo definido.
Resta-nos, quem sabe, a árvore de alguma colina,
que podemos rever cada dia;
resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face - a quem furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto
para o coração solitário?
Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias?
Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos - talvez pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num voo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga,
ou quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d'amore se abandonava.
Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre distraído,
à espera, como se tudo anunciasse a amada?
(Onde queres abrigá-la, se grandes e estranhos
pensamentos vão e vem dentro de ti e,
muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tua quase as invejas - essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes
que as apaziguadas.
Retoma infinitamente o inesgotável louvor.
Lembra-te: o herói permanece, sua queda mesma
foi um pretexto para ser - nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza
no seio esgotado,
como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar
uma jovem qualquer, abandonada pelo amante:
por que não sou como ela?
Frutificarão afinal esses longínquos sofrimentos?
Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda,
para ser no voo mais do que ela mesma.
Pois em parte alguma se detém.
Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas os santos ouviam,
quando o imenso chamado os erguia do chão;
eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam.
Não que possas suportar a voz de Deus, longe disso.
Mas ouve essa aragem, a incessante mensagem
que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças,
o rumor dos jovens mortos.
Onde quer que fosses, nas igrejas de Roma e Nápoles,
não ouvias a voz de seu destino tranquilo?
Ou inscrições não se ofereciam, sublimes?
A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz?
A ansiada libertação da aparência de injustiça
que às vezes perturba a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
à rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medroas,
não mais o ser; abandonar até mesmo
o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos.
Estranho, ver no espaço tudo quanto se encadeava,
esvoaçar, desligado.
E o estar-morto é penoso e quantas tentativas
até encontrar em seu seio um vestígio de eternidade.
- Os vivos cometem o grande erro de distinguir
demasiado bem.
Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades
a corrente eterna arrasta.
E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós,
eles que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal.
Mas nós, ávidos de grandes mistérios,
nós que tantas vezes só através da dor atingimos
a feliz transformação, sem eles poderíamos ser?
Inutilmente foi que outrora, a primeira música
para lamentar Linos violentou a rigidez
da matéria inerte?
No espaço que ele abandonava, jovem, quase deus,
pela primeira vez o vácuo estremeceu em vibrações –
que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.
(Tradução de Dora Ferreira da Silva)


Publicado por Rubens Jardim em 22/06/2020 às 11h14
 
10/06/2020 19h01
A SEMANA DE FESTA DA CATEQUESE POÉTICA EM MAIO DE 2014

No final do ano, de 2013, eu anunciava a intenção de organizar comemorações aos 50 anos da Catequese Poética. Em parceria com a Fernanda De Almeida Prado, e o seu Chama Poética, realizamos na Casa das Rosas uma semana de festividades em torno desse movimento que surgiu logo após o golpe militar de 64. Pra quem não sabe, a Catequese Poética foi criada por Lindolf Bell, poeta catarinense, aqui em São Paulo, em maio de 1964, com o objetivo de reaproximar o poeta e o povo. Nessa direção a Catequese Poética criou núcleos em diversos locais do Brasil e partiu no ombro a ombro e no quem-com-quem.Nunca esquecendo, é claro, de que o lugar do poeta é onde possa inquietar e o lugar do poema são todos os lugares.
A filha do poeta, Rafaela Bell, por exemplo, conseguiu patrocínio para trazer essa exposição iconográfica que ficou aberta ao público nos jardins da Casa das Rosas. E a Rafa conseguiu também apoio de empresas de Santa Catarina para custear o livro que organizei --Lindolf Bell-50 Anos de Catequese Poética --e foi publicado pela Patuá do nosso querídíssimo Eduardo Lacerda. Embora não tenhamos conseguido sensibilizar os veículos de comunicação (jornais, revistas, emissoras de rádio e tv) que sequer noticiaram esse evento cultural, as comemorações foram concorridas e despertaram grande interesse.Felizmente, muitas pessoas visitaram a exposição,assistiram palestras, ao café aperitivo e as leituras públicas de poemas.E em algumas noites de declamação conseguimos lotar a Casa das Rosas.


Publicado por Rubens Jardim em 10/06/2020 às 19h01



Página 1 de 101 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » próxima»

Site do Escritor criado por Recanto das Letras