Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
13/09/2017 17h55
AS MULHERES POETAS...98ª POSTAGEM

WANDA MONTEIRO(19  ) poeta paraense, é advogada e escritora. Já  foi revisora e produtora editorial. Divulgou seu trabalho em revistas, blogs e sites. Publicou O Beijo da Chuva, (2009), Anverso, (2011), Duas Mulheres Entardecendo, (2011) e Aquatempo – Sementes líricas ( 2016)

no oráculo de brancas coxas

a virgem desvela-se

a castidade

rubra

rosa

pecaminosa

tomba

!

 

 a espada em silêncio e fé

 verga

e

rende-se

 

vencida pelo cansaço das veias

 

INTERDITO

De mãos em punho

O Passado

Chega a cada instante

E investe contra meu peito

O Passado é o murro que me açoita

A cada açoite

A face do Presente evanesce

O Futuro a recolhe

Sorvendo-a

Roubando-me o Meio

O Tempo erra-me

Decreta-me

Interdito!

Sou apenas um patético corpo

Orgânico

E hipotético de uma história inacabada

Existência fadada à eternidade etérea da memória

Povoada por fantasmas

Eu perdi meu itinerário

No interlúdio melancólico do Passado

 

NAUFRÁGIO

o desejo de ti

submerge

 

tudo é sede e fome

dentes trincados

fruto proibido

 

tudo é palavra calada nos lábios

voz abortada no ventre

 

tudo é grito

do que não disseram as palavras

os olhares ausentes

os gestos extintos

 

tudo é dor

que sangra no fio da carne

ávida do beijo estancado na boca

 

tudo é som

desmedido pulsar

sonora matéria que infere e fere

um coração que chove água e sal

 

tudo é abismo

dor escavada no peito

coberta com migalhas de afeto

misericordioso respeito

 

tudo é segredo desvelado

 

tudo é naufrágio

mergulho cego

fúria de marés

 

embriaguez turva de quase amor

 

o desejo de ti

é naufrágio

...........................................................................................................

 

O meio é fenda

Breu que guarda a luz

De línguas cegas

Em abissal mergulho de desejos

 

IARA CARVALHO(1980) poeta potiguar, é graduada em letras e mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia. Participou de diversas coletâneas de poesias e contos resultantes de premiações literárias. Lançou o seu primeiro livro de poemas, Milagreira, em 2011. O segundo, Saraivada, apareceu em 2015.

SEGREDOS

as operárias

atravessam a rua

com seus cabelos vermelhos.

 

disfarçam

planos incendiários

silêncios estratégicos

sonhos verdejantes.

 

quando voltam pra casa,

os companheiros

permitem toda ausência

e pudor.

 

o que as operárias

guardam no fundo

do formigueiro

ninguém sabe,

 

mas é coisa muito grande:

 

um esqueleto,

 

uma flor

 

MEDIEVAL E SANTA

Nos minérios de sua parede,

há mistérios de fogo, sal e lenda.

 

(sinistras sendas

segredadas em sonhos)

 

Para o encontro da botija,

quebro os azulejos

pintados pelas mãos

de minha bisavó.

 

Ouro e prata

azuleiam meu coração

com dor vidrada e secreta.

 

Penso em sair correndo,

mas meu corpo está fincado

no chão da cozinha:

 

o ímã da terra me chama

ao encanto das origens.

 

SARAIVADA

apresso o passo,

que lá vem o silêncio.

 

corra:

ele consome

suas melhores preces.

 

voar é grande

— então voe.

 

exploda

espalhe

ecoe.

 

não recolha os cacos de

memória e osso

nem amacie o dorso ferido

dos campos minados.

 

desfira um golpe

misericordioso

no corpo sem carne

do silêncio.

 

e com o sangue escorrido

escreva um livro.

 

DESFEITA

cortei cabelo,

unhas

e todos os carboidratos.

 

os meus pulsos,

porém,

ainda estão intactos.

 

BRUNA KALIL OTHERO (1995) poeta mineira, publicou seu primeiro livro, “POÉTIQUASE” em fins de 2015, quando tinha apenas 20 anos.Mas antes disso já havia participado da antologia Sarau Brasil(2014) e divulgado seus poemas em O Emplasto e na Germina.É estudante de letras na UFMG e empreende pesquisa sobre a presença do corpo na poesia atual escrita por mulheres.

DELÍRICO

Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

escrevo poemas como quem bate

na porta

perguntando

timidamente

se pode entrar

escrevo poemas como quem bate

no peito

tentando arrancar dali

uma veia do coração

sangue venenoso

escrevo poemas como quem bate

palmas

estupefata de ver

um filho meu

grudado no papel

e esse êxtase todo esse delírio

me excitam

quando rodo a maçaneta

escrevo poemas como quem bate uma punheta

 

DE VERÃO

nosso amor é um castelo de areia

que nós

persistentes

munidos de pás e baldes

plásticos

lutamos pra construir

no terreno movediço

desta praia

e ele fica lindo

imponente

com janelas grandes alas

salões de festa

bandeiras

tudo isso

pra no fim do dia

o mar vir

de inveja ou solidão

e derrubá-lo

no glamour aquático

do caos

o pouco que fica

além da vaga memória arquitetônica

é um grão de areia

persistente

na calcinha do meu biquíni

 

TEMPO

vejo ao longe

aquela mulher decadente

com o rosto gasto

as mãos gastas o pescoço

e o ar de

já foi bonita

alcanço-a

caminhamos lado a lado

ela me olha

fixa

eu pisco

passo na sua frente

com o passo

trêmulo consciente

amanhã

serei eu

a decadência

 

CONFUSÃO MIMÉTICA

eu não sou eu

Sebastião Uchôa Leite

este eu

que está aí

pomposo cheio de si

se querendo todo achando

que é o rei da cocada preta

este eu

não sou eu não

viu?

juro que eu

– eu de verdade –

eu sou ótima

conversada despojada

e no máximo

princesa dessa cocada

 

JULIANA AMATO(19  ) poeta paulista, edita, traduz, revisa e escreve. Publicou Brevida (2011), diário aleatório – site/livro em parceria com Thany Sanches e Jezebel, ilustrado por Mariana Coan, integrando o projeto Boca Santa. Os poemas selecionados fazem parte de Correspondência, seu primeiro livro de poesia. Escreve há algum tempo no microclima, que está um pouco abandonado, mas pretende renascer dos escombros.

agradeço sem palavras sua aparição

a lembrança do meu nome

agradeço as gravatas

as admiráveis gravatas e lamento

a sua ausência

aqui tudo vai intranquilo

mas me acalma o instante

ver sua alma disposta

ao vento que passa

(sua alma

nebulosa)

é verão na borda do atlântico

faz sol e mar mas não podemos

não, não podemos agora

 

****************************************************************

hace um año que te fuiste

tan pronto irás, una vez más

neste exato momento me vejo num quarto

fechado

frestas abertas, a janela

você ainda criança atrás da cortina

observa

você, observo seu olhar

compreende:

não existe mãe no brasil

não existe casa, essa casa, aqui

há o futuro e há tudo

há milhares de rochas

pedras pontiagudas

traiçoeiras

pensa na sua casa

sua casa tão longe, aqui,

uma pedra quente

e lisa

 

de M. para F.

inverno, 2011

assim recomeço depois da demora

culpa do A aberto

do caos, da casa

do novo fôlego

continuo longe as roupas estão

no devido lugar

(é possível sim dividir com

estranhos, e sonhos, oui)

no vagar, nunca fui a porto alegre

sequer ao porto

mas às montanhas

ao novo ano

ao branco puro aos amigos fui

à irremediável fronteira

da língua:

randonné significa

escalar a neve

descobri a 2 mil metros do chão

e alguma ideia na cabeça

para um papel

 

DEZANOTAÇÕES SOBRE A POESIA

assim recomeço, me perdi

vi Baudelaire milimétrico, construído

pela primeira vez

pois bem há os que ganham

por pontos

os de nocaute

e os momentos amargos

que já passei

projetos poéticos passam a perna

p-p-p-p

o projeto poético, um enganador

eu, um muito menor (debutante

no auge da hysteria – saltinhos)

um projétil, nenhum rimbaud

nem meio rilke

muita potência, pouca questão

as solas dos pés ardem no chão

os olhos não estão prontos

para rever

o resto desse que se vai

fica e lança um abraço

demasiado

apertado

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 13/09/2017 às 17h55
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
24/08/2017 17h25
AS MULHERES POETAS...97ª POSTAGEM

VERA ALBUQUERQUE(19  ) poeta paranaense, é psicóloga, educadora e ativista cultural. É autora de livros infantis, consultora editorial, criadora de projetos de formação para professores em estados e municípios. Coordenadora interina do Fórum das Entidades Culturais de Curitiba .Publicou o livro de poemas Sozinhes

CLÁSSICO

Porque suas mãos me olham e seus olhos

passeiam em mim...

Quieta,sinto o que elas me dizem e,

Meus olhos fechados, escutam seus dedos

De pianista fazendo da minha pele

o número 3 de Rachmaninoff.

 

FUGAZ

“Coisas que duram bem menos do que a gente

quer: viagem, dormir com chuva, uma dança

bem dançada, um abraço apertado, uma

conversa ao redor da mesa, os amigos e o

alimento que tem nela, pessoas queridas que

chegam de surpresa, a risada estampada no

rosto de um filho e junto com isso a infância

dele, a vida dos cães, a música preferida que

de repente toca no rádio, o canto do sabiá no

meio do trânsito barulhento (eu ouço), aquela

voz tão esperada quando a ligação está ruim,

uma trufa, flores quando a gente ganha e

aquele olhar.

 

A SANGUE FRIO

Quebrar todas as regras,

desacreditar todos os anexins,

viver sem um laivo de mágoa,

porque quem espera, desespera

e eu vivo todos os dias o fim.

 

A lâmina que seguro pelo fio

Me corta a carne e rio.

Rio, porque o rio em que navego

Vai acabar no mar...e me deixo levar e

Meu pensamento, como meu sangue escorre

Arrebenta, ferve...queima...

Como uma torturada que se conserva viva,

Pra que fale, pra que escreva, pra que grite

Antes que morra...

 

Antes que morra... se morta já estava,

Porque a vida nada mais é do que sedução e miragens

Cogitações, assombros, encantos fugazes.

O sol que ilumina queima, o amor que incendeia

É cinza no fim.

Tudo nos escorre pelos dedos como água,

 

Por isso nada mais quero possuir, além de mim.

 

DESINSPIRAÇÃO

Não! Não me ame.

Não me ame por motivos que te fazem achar que me ama.

As razões desse amor não estão em mim.

E também não sei onde estão.

Não me ame. Eu te imploro. NÃO ME AME.

O amor que sente por mim é um fardo, um peso.

Um muro no meu caminho que me faz parar.

Como qualquer amor, não liberta.

Então não me ame. Seremos dois não amados, mas livres.

Eu prefiro...mil vezes eu prefiro.

As rédeas brilhantes do amor cegam a visão,

enganam os caminhantes e nos tiram a inspiração.

Quero minha inspiração. Ela não vem desse amor. Ela vem do caos,

das noites insones, ela vem da falta de amor...mas quando ela vem ela é plena,

e me completa.

Então não me ame.

Mas se ainda assim me amar, não explique, nem justifique e

Por deus – não me culpe.

E por favor não me conte.

Me ame em silêncio. É sublime e lírico...e me deixe ir.

Porque por amor algum eu ficarei refém de nada, além de mim.

E entenda enfim, que esse amor não existe.

O amor só existe em si mesmo.

Mas, se por desatenção ainda assim, quiser me amar,

não ponha as razões da alma,

não ponha as razões do corpo.

Não fale dos motivos de Deus (estes ninguém explica).

Não fale dos motivos meus (não existem).

Se quiser me amar, me ame sem motivos.

Não existem motivos no amor.

Os motivos querem explicação.

O amor ama.

Os motivos não

 

HELENA ORTIZ(19  ) poeta gaúcha, é jornalista, contista e editora. Criou e dirigiu o projeto Panorama da Palavra, mostra semanal de poesia. Estreou em 1995 com “Pedaço de Mim”. Em seguida, vieram “Margaridas” (1997); “Azul e Sem Sapatos” (1997); “Em Par” (2001); “Sol Sobre o Dilúvio” (2005); “O silêncio das xícaras” (2009); “Alfinetes” (2012).

 

ESGOTAMENTO

As palavras estão exaustas

de escrever contra a guerra

séculos e séculos

O que temos hoje, sem nenhuma trégua?

Guerras e guerras

 

As palavras estão cansadas

Há que enterrá-las

como enterramos os mortos.

Há que esquecê-las

até que chegue

um tempo novo de verdade incólume

e as palavras ressuscitem inocentes

 

SÉCULO XXI

Uma estrela maldosa piscará

uma única vez anunciando:

O mundo acabará como o conhecemos

Dominaremos terra céu e mar

O ar, não – estará rarefeito

Irrecuperável

 

A sede e a chuva ácida

Nos transformarão em horrendas criaturas

A rosnar e trucidar a carne

 

DILÚVIO

as águas cobrem as ruas

arrastando tudo

 

do outro lado junto ao muro

minha mãe. só os olhos

pedem que a recolha

 

tenho força de mil cavalos

e aquela flor

contra a corrente

 

tomo minha mãe nos braços

ela se encolhe

aqueço-a em meu colo

e devolvo-lhe o leite

 

para sempre Argentina

 

com quantos mil lençóis amordaçaram a noite

com quantos corpos cegos sangraram o mar

quantas e quantas noites mal dormidas

suportando passar os vendavais

o último cigarro a espera o rio

calçadas molhadas ossos frios

reflexos nas poças

os olhos de Borges

bandoneón

mar frio

maldita

dura

 

6 DE MAIO
estávamos felizes em pleno domingo 
a certeza próxima do outro 
comida no fogo roupa 
já passada 
casa nem tão limpa 
sapatos num canto 
projetos alinhavados 

a notícia chegou pelo telefone 
apagou o fogo 
separou nossos sapatos 

notícia maior que a vida 

 

MARIA BALÉ (19  ) poeta paulista, é pós-graduada em comunicação corporativa pela PUC - SP, produtora de textos publicitários, fotógrafa e autora de contos.Já foi premiada como escritora e como fotógrafa. É cronista do jornal eletrônico Algo a Dizer . Integra as antologias Damas de Ouro & Valetes Espada, Um e Dois, Sobre Lagartas e Borboletas e Hiperconexões, Realidade Expandida

 

ANIVERSÁRIO

Ainda 

com a placenta 

nas mãos  

punhos marciais

olhos de crepúsculo 

e voz de feitor

a mãe diz:

 

É dada a luz 

Agora vá!

Nascer é todo dia.

 

PUPA

Vestida de cápsula

gesto-me no tempo

 

sem pressa

 

nas vésperas do voo

teço tramas

 

serei asas

 

CLOSET

Como uma roupa de festa

cuidadosamente guardada

cultua a delicadeza

enquanto a força costura seus dias

 

MADRIGAL SEM BANDEIRA

O que mais amo em ti

não é o que pensa

luz que se traduz

o que fala

brisa que refresca

O que mais amo em ti

não é o olhar

remanso para minha culpa

Os braços

prenhes de abraços

O que mais amo em ti

não é o que pulsa

expulsa, exorciza

O que mais amo em ti

não é a boca

de beijos férteis

gozo, inundação

fecundação

O que mais amo em ti

é o renascer de mim

na saliva da tua alma.

 

BIANKA DE ANDRADE(1985) poeta mineira, é graduada em letras e mestranda em teoria da literatura pela UFMG. Já publicou poemas em algumas revistas digitais. Seu livro de estréia é Desejada Dor(2013)

 

BUMERANGUE

As palavras,

lancei-as

ao mundo.

 

O vento,

agressivo,

trouxe-os

de volta.

 

Me golpearam!

 

AMOR IDEAL

Convergimo-nos

irresistivelmente

um para o outro.

 

Todo o resto

é divergência

insuperável.

 

FANTASIA

Eu não quis a minissaia da vitrine.

Eu a quis em meu corpo.

 

Agora que a tenho,

quero suas duas mãos

em toque firme

pressionando minha pele,

em movimento unidirecional,

desde os pés

até as curvas da minha bunda.

 

Desse exato ponto,

quero senti-las vorazes

me puxando

até que nossos corpos

estejam efusivamente

em contato.

 

JOGO DE PREFIXOS

Quero

unir

o inútil

ao agradável.

 

Os que

desejam

o útil

 

fiquem

também

com

o desagradável.


Publicado por Rubens Jardim em 24/08/2017 às 17h25
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07/08/2017 12h50
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (96ª POSTAGEM)

BEATRIZ AZEVEDO(19  ) poeta paulistana, cantora, compositora, estudou dramaturgia e é mestre em literatura pela USP. Possui carreira internacional, com discos lançados no Brasil, Europa e Japão. Assina parcerias com Augusto de Campos e Hilda Hilst .Publicou dois livros de poemas: Peripatéticos(1996) e Idade da Pedra(2002).

EU SOU A BEATRIZ

eu sou a beatriz

sem dentes

eu sou a beatriz

dândi abundante

eu sou a beatriz

estridente gigante

eu não sou mais

a beatriz de Dante

 

A FLOR AZUL DO SILÊNCIO

apaixonar-se por uma puta

ter o abismo nos olhos

revoltar-se contra a banalidade dos manuais

amar os poetas que se odeiam

sobretudo aqueles que se insultam mutuamente nas rodas literárias

não pertencer a panelinhas

cozinhar as tripas da poesia no caldeirão dos bruxos

namorar o crepúsculo

trair o espelho e o tempo

casar-se com o sol

colher no asfalto a flor azul do silêncio

depois da passagem apocalíptica do caminhão de lixo

perder o trem perder a hora perder a conta

perder o amigo e a piada

mas não perder a esperança nem o humor

não perder a paciência

nem a suprema soberania do amor

 

O MAR

o poeta nada merece o mar

nenhuma palavra desmerece o mar

o homem nada não conhece o mar

mergulha na água sua cabeça não entende o mar

a água do seu corpo não navega o mar

o barco a vela não acende o mar

ninguém nada reconhece o mar

só o mar sabe nadar

o homem no mar imenso nada

penso

o poeta no mar

nada

no imenso

o mundo

nada

mesmo

a mulher nada se oferece ao mar

o mar desconhece o mar

o homem nada se assemelha ao mar

o homem nada nada nada nada nada nada nada nada

não

alcança

o mar

 

ARANHA FUNÂMBULA

aranha funâmbula

tece seu arame

fio de aço com finíssima argamassa de pétala

linha de pluma

aranha astronauta

flutua e salta

estranha entranha de traços

aranha pendurada

prumo pêndulo rasante sem asa

guindaste de ar e nadas

enquanto eu construía a casa

areia tijolo cimento e sol

ela desenhava suas mandalas

se apossava dos cantos

vãos

quinas

esquinas

me olhava com as patas

e desprezava

aranha, fala :

pra que tanta tralha ?

com quase nada

a aranha criava

sua rede de seda e arte

porque sabe

– cedo ou tarde –

parte-se

ROZA MONCAYO ( 1954 ) poeta goiana é também artista plástica. Vive desde os 5 anos em São Paulo. Fez curso de história da arte no MASP,  bacharelou-se em letras e ciências sociais pela USP e foi educadora em escolas públicas. Em 1988 foi para Bélgica, ficou um ano, e quando voltou decidiu abandonar o ensino e dedicar-se inteiramente à arte. Seus poemas já foram publicados pela revista CULT, em abril de 2010.  Publicou seu primeiro livro de poemas - Labirintos da Alma, em 2014, pela editora Patuá.

ORIGEM

Estourar os tímpanos

e libertar a alma.

 

Ouvir com o corpo inteiro

o grito das entranhas.

 

Misturar-se aos sons perfurantes

do encontro absoluto

da baqueta e do couro.

 

Defrontar-se com o início de tudo,

e sentir-se nascendo

do berro e da luz

que te joga no mundo.

 

Ritual de iniciação,

de resistência ----

o som primordial.

 

Resistir,

resistir desde antes.

 

SERIA MAIS FELIZ?

E se eu rasgasse a carne

o ventre

os versos?

Assumisse de vez

o incontrolável

o intolerável

o inadmissível?

 

Sonhos

jorrando do êxtase

a noite virada dia

sexo

todo dia

e os versos?

os versos na carne

nos ossos

no sangue da língua

no sabor quente

do suor

na exaustão do viver

assim

entre versos

e berros

estradas escarpadas

e ranhuras no céu.

 

Se eu assumisse este horror

seria mais feliz?

 

NOMEAR

Nome....

nome do homem

nome das coisas

nome ar.

 

Ar tem nome?

Tem nome sim o ar.

Respiração: o homem na ação de existir

de respirar.

 

Fôlego para correr

ficar

para suportar.

 

Nome do homem para se identificar.

Quem sou?

Sou...

sou João

sou Maria

não

não sei quem sou.

O nome só me nomeia

não diz afinal quem sou.

 

Ah!

que confusão

Quero voltar para o ventre

lá, onde latente sou.

Onde o nome não existe

assim falado

concreto

na boca de todo mundo.

Onde o que sou

está livre da dúvida

porque ainda não se nomeou.

 

Deve haver um lugar

um lugar só meu

sem precisar nomear.

 

UNÍSSONO

Súbita

solidão

soluça

silenciosamente

no cio sem solução

sem sol

----unção.

 

CÁSSIA JANEIRO(1964) poeta paulistana, é formada em filosofia e serviço social. Foi professora universitária e consultora da UNESCO. É secretária-geral da União Brasileira dos Escritores (UBE) Ganhou o Prêmio Mundial de Poesia Nósside (2014)e participou de várias antologias. Publicou Poemas de Janeiro(1999) e Tijolos de Veneza(2004) e A Pérola e a Ostra(2007) finalista do prêmio Jabuti em 2008.

O QUE SOBROU

                 (Para Antonio Candido)

O que sobrou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seus livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças.

O que sobrou foram seus retratos e,

Quando vi uma foto sua, sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

FLOR DE CAMINHO

Há de nascer uma flor de lótus

No meio

Do caminho.

 

Há de nascer uma flor de lótus

Permanente

Para que a gente suporte,

Para que a gente se importe

Com o que está à nossa frente.

 

Há de nascer uma flor de lótus

Permanente

Para que a gente suporte,

Para que a gente se importe

Com o que está escondido,

Longe do nosso umbigo,

Calado numa noite quente.

 

Há de nascer uma flor de lótus que nos lembre:

O caminho do meio não é

O meio do caminho.

 

ABANDONO

Elas esbarram em nós

Com seus chocolates, balas, truques

E limpam nossos para-brisas nos faróis.

Sua infância escorre como aquela

Água suja que vejo no vidro.

Uma moeda qualquer

É a medida do seu valor.

São crianças sem dúvidas poéticas

Ou filosóficas.

Não há Hamlets entre elas.

Não estão entre o ser e o não ser.

Não são.

 

PÉS

Sob meus pés,

Nada –

E esse nada me

Sustém

GABRIELA SILVA(1978 ) poeta paulistana, deixou São Paulo há muito tempo e vive em Porto Alegre. Formada em letras, é  mestre e doutora em teoria da literatura na PUCRS. Professora universitária já ministrou oficinas de criação literária e foi uma das coordenadoras da Breviário cursos, em Porto Alegre. Publicou seu primeiro livro de poemas Ainda é Céu em 2015.

A MÁQUINA QUE SOMOS

Somos essa máquina

de carne, amorzinho,

pernas e braços articulados.

 

Ossos de bom material.

Viscosos, certos líquidos

nos lubrificam, às vezes nos inundam.

 

Somos essa máquina

de reproduzir o mundo,

ou de povoá-lo.

 

Nossas almas,

se enguiçarem,

mandamos a Deus: o criador.

 

Carcaças, ferimos a memória,

dos que fingem não saber

que somos arremedos de qualquer coisa.

 

Somos essa máquina

de torpor, de ânsia,

amor, tédio, ódio.

 

Todas as nossas peças

se encaixam

em comovente perfeição.

 

E por coração

chamamos essa bomba monocórdica

que nos confunde e mantém.

 

DESVÃOS

Perdemo-nos

entre os vãos

úmidos

de nossos dedos.

 

Escapamos

pela nossas pernas

longas

quase velozes.

 

Cegamo-nos

em nossos olhos

exaustos

do mundo.

 

Encontramo-nos

no nosso riso

em vias

confusas, arcaicas.

 

Atravessamos

nossos corpos

tão paredes

entre nós mesmos.

 

É MENTIRA QUE FOMOS FEITOS PARA AMAR

Ainda é céu

 

Que já são horas

de sonhar!

disseram-me.

 

Que já é tempo

de despertar

sussurraram-me.

 

Por ventura

perdi-me

olhando o céu.

 

De nuvens

sob um fundo azul

passei às estrelas.

 

Por descuido

Distraí-me

Do inferno.

 

Ninguém me disse:

Ainda é céu

pra se alcançar.

 

Mas eu sei

que sem despertar

não perco o caminho até lá.

 

OUROBOROS

Se eu te perguntar agora

o que amaste em mim

que poderias me dizer?

 

“Amei o que de ti podia ter

em tempos de guerra e fome.

Amei cada palavra dita

todos os regalos: noite e dia.

Amei o que em ti completava

o ausente em mim mesmo.”

 

Então incomodada com os tempos verbais,

perguntei

por que não me amas mais?

 

“Por que me completaste

e não sou mais enigma.

Por que não és mais o silêncio

da palavra esquecida.

Por que te tornaste eu

quando eu queria ser tu”

 

Já virando o rosto

perguntei com medo

e podes me amar ainda?

 

“Amarei o que em ti

eu sou: nós.

Amarei o que posso ter

tudo e nada ao mesmo tempo

Amo o que em ti é mais vivo:

eu.”


Publicado por Rubens Jardim em 07/08/2017 às 12h50
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
18/07/2017 23h38
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (95ª POSTAGEM)

FERNANDA CRUZ FILHA (1967) poeta goiana, é psicóloga, mestranda em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiås. Publicou os livros de poesia: Regatos do Instante (2007 )e O ar mais próximo, (2012). Antes de enveredar pelos caminhos da poesia, atuou em artes cênicas e também como cantora de mpb e música edudita.

ELO

                     (a Carlos Rodrigues Brandão)

abraço o que passa e perpassa os teus ais
enquanto o que anda lentamente, solta
e desce em linhas rubras e horizontais

de uma terra amada a que sempre volta

o que nos olhos sempre espera o claro
o azul, o transparente, o amarelo
irreversível em largos gestos declaro
o tempo inverossímil, silencioso, elo

poderia antever da madrugada, a aurora
e o que nasce com o feito da tua mão

na hora egressa, caminhos afora

lugar que se transmuda tão de leve
"de dentro das pedras, do fundo do chão"*
e quase salva a existência de ser breve

A SE DAR

o silêncio aberto e minhas mãos percorrem
a aparente distância que há nos lugares
a água nesses rios que sempre correm
é a mesma, é a chuva a se dar nos ares

no tempo tudo vai e vem a unir
aproximam-me terra e céu, noite e dia
os enredos lá se vão ao que há de vir
que a memória há de ver-se no que via

a aparência nas coisas não revela
o fulgor do instante que não se acaba
a luz de uma página que amarela

entre a flor e a raiz há um leve traço
de silêncio, na seiva que há tanto se dava
e de tanto se dar há de ser o espaço

ESTÁTUA

sublime linguagem da estátua muda
vê tantos olhos e é tão único alvo
segue a tarde a sua mão imóvel
de todos os olhares se viu a salvo

a noite encoberta, as chuvas, o vento
e nada é desfeito em seu rosto branco
as eras, o gesto, o contentamento
perdura e dissolve o riso, o pranto

teu corpo, meu corpo sem movimento
meu passo, só em um dos lugares
teus olhos, meus olhos fitando vento

em um gesto único e definitivo
me grito aos rumos e aos ares
de súbito, saberei se estou vivo

ALGUNS SILÊNCIOS

Alguns silêncios
alargam o olhar

com que nos acostumamos
a pensar
o que vemos

O território
não se demarca
na frequência
das fronteiras

Um cenário
de coisas
humanas 
no horizonte
alargadas
acordei

Uma confissão minha
quase assustada
reconheço
dita em um tempo
outono
da vida

Sigo vivendo
o que antes era pouco
e agora creio
o sem-fim 

Um momento surge
sugere entre fluxos
a diferença inerente
dos tempos
no mesmo verbo

A construção contínua
a reticência no olhar
no ar das folhas
nas areias
na eira dos rumos


reinventar
e estender
entardecer nos olhos
espaços no abraço
o diálogo nas minhas
perguntas
a resposta das mãos
tão cheias de vazios
sãos...

pássaros
meus colegas de ofício
cantam na noite os limos

dos livros
a palavra dos mortos, dos vivos
muito antes, impregnadas ao ar
vivem pelos cantos
a altura
o inaugurar

 

Uma imagem fecunda
dá seus ventos de paisagem
à tudo o que passa
ao centro
à margem
reitera 
o movimento da fala
o impensado do gesto
o inesperado
em um ponto ou lado
sentido

linhas, palavras, lavras
das perguntas
convido
calo e entoo
no espaço
inteiro

inteira
estendo
entendo
o que murmura
a era 
demora
a dizer
alguma coisa
emudecida 

simples
ser

uma vida

e quem dera

no que a tempos

se diz

primavera

ADRIANA GODOY(19   ) poeta mineira, é formada em letras pela UFMG e trabalha como professora e revisora. Desde pequena escreve, mas foi a era dos blogs que tornou seus textos mais conhecidos. Colabora com alguns blogs e revistas literárias e alguns de seus poemas foram publicados no livro ‘Maria Clara: universos femininos’. Em 2015 publicou o seu primeiro livro solo: Mil noites e um abismo

não te amei logo de cara

levou exatamente quarenta e sete dias e uma noite

foi quando vi que seus olhos choraram

quando te contei sobre as noites de chuva

em uma casa velha que eu morava

foi quando te falei de um poema

sobre a solidão das pessoas nas noites de um bar

e você mordeu levemente os lábios

e me pediu mais uma dose de uísque

levou exatamente quarenta sete dias e uma noite

para eu ver que você era a pessoa que eu queria ao meu lado

quando chovesse ou quando o dia fosse claro

e te vejo agora como te vi aquela noite

e no rádio toca uma música

e você me chama pra ouvir

e talvez vamos dançar juntos mais uma vez

VOU TE DAR MEU ÚLTIMO VERÃO

vou te dar meu último verão

todo o outono amarelo

e quando me alcançar

vai ver que sou o mais puro inverno

não dos trópicos

mas dos lugares mais frios da terra

terras da sibéria

não adianta me dizer para abrir as janelas

o sol me é estrangeiro

tenho em mim geleiras ancestrais

meu coração não bate

vacila descompassado

selvas do universo me rondam

e mesmo assim você vai me recriar

e  me amar com tudo que sou

porque você

precisa de uma criatura só sua

mesmo inventada

mesmo com essas sombras geladas

CONSTATAÇÕES

tá bom, você me disse que eu precisava sair de casa, respirar outros ares, ficar com outras pessoas.

mas não tô conseguindo, entende?

gosto de ficar aqui com meus gatos, minha música, meus filmes.

ontem até vi pânico na floresta 5.

porra, todo mundo morre de maneira mais cruel e no final  só os bandidos escapam e felizes.

aí você me pergunta: por que eu vejo filmes como esse tipo c? eu que gosto de filmes de arte e afins?

talvez algum tipo de superação ou punição subliminar, será? de noite até sonhei com algumas cenas.

gosto de fumar sem ter ninguém me enchendo o saco.

gosto de pendurar a roupa no varal e depois ficar olhando as cores perfumadas ventando na área.

gosto de poder ouvir as músicas que me fazem viajar pra qualquer lugar de mim ou do mundo.

gosto de não atender o telefone.

gosto de não ter horário pra comer.

gosto de não ir ao médico.

gosto de ler poemas fodas e textos fodas e descobrir uma porrada de coisas que mexem com a alma.

e passear pelo facebook mas nem sempre.

gosto de andar com roupa velha e rasgada.

gosto de voltar pra casa sempre.

gosto de tomar café olhando a tarde.

aí você me disse que era depressão mas não tô triste.

até danço e canto e brinco no sol com os gatos.

vejo amigos e gosto de ficar com eles e saber que estão por perto.

gosto de me desesperar pelo meu time e gritar quando ele ganha.

gosto de tomar uns porres e só falar merda.

gosto de beijar na boca e namorar de vez em quando.

e cozinhar quando tenho vontade.

gosto do frio e de dias cinzentos.

gosto de ficar com o pessoal lá de casa e muito.

gosto de saber que meus filhos estão bem.

mas não consigo lidar com a desumanidade nunca.

 

gosto de saber que ainda posso fazer o que gosto.

FERIDAS CUSTAM A SECAR

tenho em mim o resto de meus dias

e não sei de que são feitos

sei que horas são quando me chamam pra almoçar

ou qualquer outra besteira cotidiana

a não ser quando incendeia a lua

me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto

e desisto de pular a janela

vou acumulando sorrisos e caretas

feridas custam a secar

lobos passam silenciosos e com medo

percebo só as suas sombras

e isso me basta

um drink, amor?

para celebrar o vazio

o que importa

se os degraus são altos e não posso alcançá-los?

enojam-me as tragédias humanas

e sou uma delas

PÂMELA FILIPINI(1994) poeta nascida na cidade de Rolim de Moura , em Rondônia, começou a escrever na infância. Tem formação universitária em Pedagogia, e atualmente dedica-se exclusivamente à escrita. Cultiva solidão e se planta ao silêncio para sobreviver. Escreve. E nas horas vagas, existe.,O lançamento de seu primeiro livro, Folhas dos Ossos ou o tratado das coisas insignificantes será dia 26 de Agosto, no Patuscada.

Haverá um dia que

serei apenas letra

 

e no meu epitáfio

será gravado

[…]

“ela, de tanto ser nada,

tornou-se palavra.”

..........................................................................................................

Nalgum momento da

vida é preciso

 

desmoronar

 

[todo início já foi um entulho]

[…]

Recriar-se é uma

contínua

 

desconstrução

de escombros.

SOLIDÃO RASA

Solidão rasa, aquela que tece

vazios incuráveis

 

[na artéria do tempo]

 

Que não perfura o átomo do mundo

e não pode plantar o afeto

 

no cerne do escombro

 

Que não corrompe os moldes, que

não peca amando o amor como o

 

amor que ama o ferido

 

Que coagula as coisas de dentro

com a mesma rapidez que esconde

 

o olho na pálpebra

 

[que não é semente]

[…]

A semente só aponta à vida quando

afogada pela terra.

...................................................................................................

Sou uma metáfora no mundo.

 

[quero ser real]

 

Uma canção cantada pelas

 

folhas que caem das árvores.

 

A celebração da fruta que

 

amadurece.

POEMA PARA QUEM NÃO CONSEGUE CESSAR DE SI MESMO

Não é conhecer alguém,

principiá-lo em seus silêncios

se apaixonar por alguém,

aprender a amar alguém

 

Não é viver com alguém,

chorar nos ombros de alguém

ter a mão de alguém esquentando a sua

 

Não é sorrir para alguém

dar uma flor para alguém

ou plantar um jardim inteiro para alguém

 

Não é sangrar sua alma para alguém

dar a alguém todos os seus poemas

ou em alguém abraçar todos os abraços

 

Não é brigar com alguém

sair da vida de alguém

e iniciar um novo amanhecer com alguém

[…]

É nunca ter alguém

nunca conseguir esquentar a mão de alguém

por ter o passo costurado ao chão

por não suportar estancar o sangramanto da própria alma

 

É nunca conseguir sorrir

porque a boca tem medo do desabrochar

porque tudo o que floresce recebe novos

olhares

 

É querer ler todos os poemas que escreveu

para alguém

mas não conseguir abrir a porta do quarto.

 

É nunca conseguir cessar de si mesmo.

NATASHA FELIX(1996) poeta santista, está vivendo em São Paulo e cursa letras na USP. Publicou o zine anemonímia (2016) e tem poemas por algumas revistas digitais e físicas. Os textos podem ser encontrados na Mallarmargens, Medium, Nó de 8, Garupa, Raimundo e soltos em sua página pessoal do Facebook.

 

com a cabeça pousada

nas pernas da avó

 a saia de brocado

pinica a orelha

esquerda.

 

cantarola salmos e vai à caça

distraída.

 

o pente-fino é azul.

as varizes na panturrilha dela também.

os dias e a toalha de mesa.

o pente-fino

 atravessa meus cabelos de diaba

as crianças dizem diaba

eu nunca digo.

um pouco amansados

(não o suficiente)

com álcool e cravos

nada

enquanto a avó ajeita os óculos,

procura bichos em mim.

 

a mesma que estoura as lêndeas

as unhas imensas.

como se vingasse

suspeito

o que não caberia na casa.

CARTA ABERTA AOS HOMENS DE PASSAGEM

você com certeza vai

você com certeza vai lembrar de mim

quando topar com a salamandra azul

no orquidário vai com certeza

você vai com certeza

lembrar de mim.

do anel que foi parar no ralo

cheio de cabelo e porra,

você vai lembrar

dos filhos que não fez em mim

eu te disse

era sério quando

o elevador quebrou no oitavo andar eu te disse

aquele era o nosso momento de glória

eu te disse

pra botar no formol e você não entendeu

na hora mas acho que agora olhando a

salamandra azul vai sacar

eu chego sabendo que vou embora.

você vai lembrar

a gente

com vinte anos sem vergonha na cara

nem pra comprar um cortador de unha

imediatista

eu arrancava os excessos com os dentes.

tinha dez reais pra catuaba e um baseado no bolso

eu arrancava os excessos com os dentes.

você vai lembrar disso

de hoje pra trinta anos isso vai ser uma lenda

você vai lembrar de mim

com certeza vai

encostar a testa no box no segundo banho

do dia

enquanto tua mulher tira os

pentelhos da virilha e lê sobre o golpe na turquia

e eu vou estar

em qualquer lugar longe da casa

que nunca tivemos.

CRAQUELADA

tenho habitado muitos riscos.

o baiacu inchado na garganta insiste em

me competir o ar. como trepar em montevidéu

e acordar no jaguaré: genealogia do deslocamento -

me abstenho de maiores explicações. 

li piva como quem toma chá de camomila com canela

assim descobri que o erro é um bacanal lotado de ex

marido. não dá pra ler piva antes do dejejum de uma

segunda-feira do mesmo jeito que não dá pra esperar

o baiacu sair da garganta por vontade divina. tenho

ficado muito quieta &

no silêncio a evidência me expõe:

a memória das sereias do tejo, essa eu invejo; das

prostitutas da Mongólia tenho os mesmos dentes

vermelhos. não sei onde guardei as fotos da

ultima ida ao mercadão de são paulo. onde deixei

o molho de chave, onde foi parar aquele gozo na páscoa de 98,

o jornal pra embalar os cacos de vidro, não sei onde. o

baiacu espinha minha glote, me impede a distância.

mesmo assim eu e o que restou das minhas

lembranças tombadas – nebulosas e uruguaias

como você –

no ringue,

lutando contra o peixe, eu.

FACTUAL

foi certeiro o tiro foi rigidamente correto

bem no meio do olho do fuzuê

no metrô da sé seis e meia

peritos rearranjam a cena

toda a peripécia dá pinta

de que foi marido corno

atrás do próprio espelho,

velha leonora diz isso mas

tem aqueles casos

de objeto não identificado na pista sabe

não basta adiantar a vontade

de deus ainda atrapalha a vida

dozoutro não sei não sei pode

ser bala perdida mas foi tão certo

o tiro foi tão dentro da expectativa

não sei não sei pode ser só

impressão minha ou esse

giz de marcação lupa autópsia

esse cálculo todo com fita métrica e tudo

do espaço entre o ato e o desfecho essas

suposições o desconforto tudo muito

contraído não sei não sei pode ser

que esse tiro certeiro seja

como o nosso encontro:

nem aconteceu ainda.

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 18/07/2017 às 23h38
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
30/06/2017 15h36
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (94ª POSTAGEM)

CLAUDIA QUINTANA (1969) poeta paulistana, é  médica formada pela USP  e especialista em Cuidados Paliativos pelo Instituto Pallium e Universidade de Oxford, além de pós-graduada em Intervenções em Luto. É pioneira no Brasil na área. Publicou o livro de poemas Linhas Pares (2012)  e colaborou no livro Cuidando de quem cuida (2015) e em breve publicará A morte é um dia que vale a pena viver.

No avesso de um carinho

sonho que teus cabelos acariciam meus dedos

encosto meu peito nos teus ouvidos

e teu coracão me conta, marejado de amor.

 

é no alto da noite que a tristeza mais silenciosa vai chegar hoje,

a saudade me despertará.

De qualquer lado que eu viva hoje,

o outro adormecerá vazio.

Tem dias que sou

feita de lua.

PREFIXOS

Tenho um pré-sentimento

de dias muito longos

Uma noite com um pós-sentimento

que des-colore os dias e

dolore o sonho.

 

Re-sentindo, caminho.

Não tenho mais verso, só re-verso.

PRECE

Pensar que deixo esse amor quase como uma religião

já não seria tanta benção como

são meus lábios

que rezam todas as noites palavras santas

gratificando a vida

antes de pronunciar teu nome.

Só agora entendo que poesia existe

para que me descanse de palavras

prisioneiras da minha mente onde sobrevivo.

Em algum lugar sagrado deve haver uma casa azul sobre a colina onde

te espero. E nesse tempo depois de Cristo, amo mais é você.

A TRAIÇÃO

a vida que se entrega para

a morte que trai

que chega sorrateira, meio sombra

não diz que vai te levar dali alguns dias

e tudo parece tão rotineiro

que nem vale a pena gastar um tempo pensando no fim

 

a morte que chega hoje,

que chega agora

que chegou há pouco,

 

tão rotineira a morte

tão rotineira a vida.

 

A tarefa do dia

é reconstruir tua ausência.

PATRÍCIA CLAUDINE HOFFMANN(1975) poeta paulistana, mora em Joinville desde 1981. Cursou letras e é professora da rede estadual de ensino. Autora dos livros de poesia:  Água Confessa ( 2001), Sete Silêncios (2004 ), Matadouro Imperfeito (2016), e Feito Vértebras de Colibris (2017). Este último integra a coleção Mariana Edições movimento que promove a literature produzida por mulheres. 

COLISÃO DE ESPERAS

Saberás desabitar teu tempo

nas vértebras dos colibris.

 

Ainda que colidam esperas

e multipliquem-se de vésperas.

Ainda que removam teus navios

e os desafios envelheçam.

 

Saberás do espelho

nos rigores dos olhos

que molham a cara.

 

E tudo será retrospecto,

avulso...

sem ramificações

que não sejam marítimas.

 

Saberás legitimar das fraudes

o esquecimento,

a desmemória-chave

do que agora recomeça

e já não pode ser outro

por falta ou excesso de pacto.

 

Sorverás da palavra

a nódoa imperdoável

da beleza.

 

Rezarás inúteis distâncias

por causa das gentes

e estas ressurgirão

no tardio de cada urgência.

 

Saberás,

no pontal das cegueiras,

das bandeiras que se dissolvem

quando feitas de gelo e sal.

 

Deixarás teu tempo

como o animal que deixa

- do combate ao ninho -

o incompatível caminho.

                                               - É teu sigilo voltar.

 ORATÓRIOS D’ÁGUA PARA GUARDAR HOJES

VIII - da imersão nos dias -

Remir-me

no estreito dos igarapés,

através do corpo em salmo.

Salvo a promessa adiada

de esquecer aqueles dias.

 

Imersão. Compressa.

Glândula do rio.

 

Peito raso. Ocaso.

Olho mais fundo que o vazio.

 

Rápida calêndula. Gôndola.

Calendário d’água. Memória.

Morna. Sonda.

Sublimação do estio.

 

Lavar a cruz

do que não se cumpriu

esforça muito uma oração.

Se há elevação.

 

Escavo no rosto da sombra

um outro leito.

Até completar o abrir da lágrima

na remissão do extremo.

 

E remo.

ATÉ QUE OS PORTÕES DESISTAM

                 para meu pai em despedida

A paz cansada em teu rosto

de quase tudo

já disperso.

 

Cada um conhece sua espera.

 

Todas as horas reunidas

concluíram-te sem manifesto.

 

Que imagem te recolheu?

Que derradeiro pensar?

 

Lembro do contra-aceno

em teu olhar,

no velejar de arames

farpando de medo

nossas verdades.

 

As mãos da morte tão fechadas...

 

E eu tendo que ficar:

inquisição, pedra, moinho.

 

Os ventos grávidos de sabotagem

a amparar andaimes

do que não fui.

 

Agora,

aqui nesse pasto de saudade

a vida foge dos dias:

requer instâncias mais desprendidas

para a devolução do sono.

 

Até que os portões desistam.

A CONDIÇÃO HUMANA

Que possamos ainda nos perder

mas só até o perdão da palavra,

de onde ela brota

sem nenhum diamante.

 

Dinamitada...

bruta, exausta

frente a uma luta

que insulta e absorve a si mesma.

E se refaz.

 

Que possamos ainda nos curar

do mundo. Ou ele de nós.

Curvarmo-nos ao sol depois...

dos solavancos dessas rotas.

Escusas. Escoltas.

 

Nos retiros para longe (mas para onde?)

desses mostruários

de monstros e martírios,

 

de tudo o que craveja e é diário.

E nos trafega sem sentido,

mesmo sem ser tiro.

 

Que o susto não nos veja mais

assim,

menos humanos,

a abrir o lacre dos sacrifícios,

dos massacres...

 

Nem os astros nem os apelos

da Via Láctea nos vejam.

 

Entre lamentos e atropelos

sob as estrelas...

nossas celas abertas,

em filas...

os filhos acelerados

morte adentro

da noite sem trancas.

 

Que os bichos não nos vejam!

Não nos vejam!

LUIZA ROMÃO(19  ) poeta paulista, é atriz e diretora de teatro. Também é arte-educadora, já tendo trabalhado em diversos programas e projetos de cultura. Publicou o livro Coquetel Motolove(2014) e participou de inúmeros saraus/slams (sendo campeã do Slam do 13, Slam da Guilhermina e vice-campeã nacional via Slam BR). Criou mais de quinze videopoemas, explorando a linguagem do spoken word.

POEMA pra ser lido em DESAFORO

(ou metáfora em legítima defesa)

poesia é a palavra em estado de lança-

chama que faz mijar na cama

quando não samba

é lama em pé de criança

e rasgar teia de aranha

poesia é a vingança da cigarra:

enforcar a última formiga

nas tripas do último louva-deus

 

poesia é o império do ócio

é trabalho e não negócio

 

sou mais a simplicidade de um grito de guerra

que o hermetismo de um verso decassílabo:

é preciso desaprender gramática

para entender a lírica

de cinco mil famílias exigindo moradia

é preciso desmontar corretores

para entender a semântica

de uma mulher se tocando pela primeira vez

aos quarenta e dois anos

 

só acredito num soneto sujo de terra

perfeita métrica

de alicate com cerca elétrica

 

pense num despejo:

não há metáfora que resista

à arquitetura retrô de um new-shopping-vertical

faltam eufemismos

quando a casa vira ponte

e viaduto torna lar

 

poesia é mais que beat box hip hop hype pop cult rock

da quantidade de caracteres encavalados num estoque

é a voz que berra e carrega

o desejo de ser com o outro

um só corpo

 

quando inicio um verso

converso

com as dezoito mulheres

que antes de mim

sim

tiveram fala estéril

 

não é denúncia

é revide

de mão fechada

e peito aberto

que sem pulmões

um poema é abscesso

 

alerto:

caneta é artimanha de boteco

poesia está no inverso

é cicatrizar os pulsos

e erguer os punhos

que renascer se faz na luta

CORAÇÃO DE FRANGO

e o coração,

quanto pesa?

perguntou ela,

moça magrela

de expostas costelas,

ao homem bigodudo

detrás do balcão.

 

depende,

de boi ou de frango?

 

intrigada

não entendeu,

pois era do dela

que tratava.

 

sabia que pouco valia,

era carne fraca

sangue de anemia

que batia mais por inércia,

do que serventia.

 

na verdade,

queria fazer uma barganha,

trocar seu coração

por, quem sabe,

um naco de picanha.

 

o homem não estranhou a proposta

da moça de costelas expostas.

era a terceira vez

que vinham lhe oferecer

aquele estranho produto

já conhecidamente sem uso.

 

mas por pena ou caridade

lhe ofereceu em troca

duas asas de frango.

o que era muito,

comparado ao seu tamanho.

 

faminta,

aceitou sem demora.

lambuzou-se com as asas alheias,

visto que ela,

bicho terreno,

não conhecia tais atrevimentos.

 

até hoje não se sabe:

se foi a gordura espessa

ou a carne fibrosa

(tão desconhecidas a seu corpo de menina)

que lhe causaram alucinação.

 

fato é que

munida da carcaça das duas asas,

uma em cada mão,

acreditou-se ave,

ave maria,

e do parapeito da janela,

estufou o peito externo.

de um só golpe

sentiu o corpo leve.

 

o voo foi breve.

o baque, surdo.

a carne mole,

moída na calçada,

parecia que indagava:

 

e meu corpo,

quanto vale?

ERAM TEMPO DE ÓDIO E FERRUGEM ANTIGA

Eram tempo de ódio

e ferrugem antiga

de muito grito

e pouca voz

tempo de ritalina

amnésia e aspirina

 

eram tempos de roleta russa

e guerra fria requentada

como se miami fosse terra prometida

e cuba, a praga infestada

 

eram tempos repetidos

história como farsa

história como força

história como falsa

história como forca

estouro com foice e faca

 

e continua nessa jornada

enquanto falar não seja denúncia

nem triunfo da barbárie

 

entenda:

sua panela de teflon não conhece a fome

seu milagre faz crescer o bolo

mas não multiplica os pães

de que adianta ir pra rua,

se você não sai de casa?

 

que venham os touros furiosos

continuarei erguendo

minha bandeira vermelha

porque meu sangue é rubro

e não azul

(muito menos amarelo)

se pinta sua cara de verde

na mão, carrego martelo

 

mais que tomar partido

é tomar coragem

de enfrentar a cruz e a bala

da sua bancada milionária

 

se for preciso teremos guerra

ressuscitaremos marighella

mas sua ditadura

não aceito como remédio

PEDIDO DE CASAMENTO

caso contigo,

mas o caos

continua comigo

LUIZA MIDLEJ (2000) poeta brasiliense, começou a escrever com 13 anos, usando cadernos com capa simples, para não chamar atenção. Gosta de fotografar, catar conchinhas na praia e curtir poemas de Juliana Motter, Leminski e Fernando Pessoa. Em outras áreas suas predileções recaem sobre Frida Kahlo, Picasso, Van Gogh, Sebastião Salgado, Mick Jagger e Djavan. Publicou o livro Circunscisfláutica (2015).É a mais nova integrante de AS MULHERES POETAS...

injusta

essa saia justa

em que você nos colocou

não sei se saio

se ensaio

se fico

não sei se você ficou

essa história não tem verbo

não tem concordância

não sei se é conto

ou prosa

mas sei que ainda é criança

........................................................

sou fruto

da fruta

que se descasca

se despedaça

se decompõe

quando alguém ameaça

me tirar do pé

até que eu cresça

amadureça

e aí

seja o que deus quiser

...........................................

abri os olhos

e não te achei

tentei o olho mágico

você não apareceu

abri a porta

e não te vi

resolvi, então

abrir mão

mas nada adianta

eu só te alcanço com o coração

..............................................................

a garoa aqui

também é pranto

em

são paulo

só morre são

quem nasce santo


Publicado por Rubens Jardim em 30/06/2017 às 15h36
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