Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
19/12/2016 19h48
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (85ª POSTAGEM)

RAQUEL GAIO(19  ) poeta carioca, é atriz,  bacharel em letras e performer. Em 2011 lançou o livro de poemas O Exercício no Mundo com Luis Alexandre Louzada e Denise Fraga. Foi publicada nas revistas Um Conto, Diversos Afins, Estrelas Vagabundas e Zebra, estas duas últimas  pela UFRJ.

eu, novamente,

preparo o café da manhã

enquanto você arranca meus cílios.

vou me desfiando

falando pra você não correr assim tão depressa

sobre o meu deslize.

você ignora meus ruídos

e arranca uma flor do meu ventre.

 

(-você não ouve minhas pernas-

e seu jejum rapta meu sono)

 

Tenho nas manhãs em que passo com você,

uma imprecisão na medida do café.

..................................................................................................................

tem um rinoceronte no meu pátio que me flameja toda noite

 

não há metáfora que sustente meu quadril

dolo encardido que ensurdece os ossos como uma mancha.

tenho entre os dedos um crucifixo pagão

que me faz sangrar como eu sempre quis.

novena que entorpece.

 

as horas no meu corpo são como escombros,

altares perdidos no oceano.

..................................................................................................................

como uma faca que abre a manhã

tenho os órgãos completos de anoitecimentos.

borboletas jantam minha boca espessa

e me abrem com pedidos graves.

 

inauguro leitos e esquinas

e guardo no sutiã

um discurso escuro.

meus seios se esgarçam

se esquivando do cheiro que ficou encarnado,

mas encontram quinas.

então o músculo a noite

escorre como grade nas palavras

que parecem ter a potências das pedras.

 

recosturo o mamilo com a mesma faca

que abre a manhã

e a reinvento flor fome demência

e me danço e me acho no dentro

de uma borboleta ensopada

..................................................................................................................

o odor entre minhas pernas ,

meu diálogo mais esquizofrênico,

denuncia minhas velhas pegadas.

uma alcova fertilizando promessas

uma altura encardindo meus excessos .

o óleo que produzo rasga minha língua

e mancha a memória dos meus tornozelos.

ando manca pelas redomas de tua igreja,

pelas profecias atônitas de uma virgem.

o sangue que me jorra

me reduz a um beijo pontiagudo.

escombros em precipício.

carne que não envelhece.

teu tempo é grave

e minhas pernas querem deter tua fuga.

nuvem cigana.

alçar voos de serpente

lambuzar esse fingido diálogo

beber nosso líquido numa catedral sem deuses.

 

costura de uma noite pagã.

 

MICHELLE C BUSS (19   ) poeta gaúcha, nascida em Jaguari, interior do Rio Grande do Sul, vive em Porto Alegre desde 2007. É graduada em comunicação social pela PUCRS e atualmente faz o curso de letras na UFRGS. Começou a escrever poemas ainda quando criança. Publicou os livros Mosaicos (2014) e Sal, topázio e mercúrio ( 2015)

Há coisas que não

cabem em um poema:

a suave ondulação

que se desenha

na superfície da água

quando a cigarra

gentil

se molha.

...................................................................................

Percorro
entre a bruma que se expande
que se mistura às pedras
e ao som de cascas de árvores que sussurram
os arcanos do tempo e da memória.

A floresta me abraça e se fecha em verde,
penumbra e madrugada.
Há uma lua pingando prata na noite
e um sol além da noite rotacionando a vida que
se constela em um dos braços do universo.

Percorro
não horas,
mas batimentos cardíacos.

Pã toca ao longe sua flauta
soprando melodias carregadas
no bico de um melro.

Há tanta terra
quanto céu.

Mais fundo na floresta
meus pés marcam o seu corpo.
Reconhecimento de DNAs,
eu com a floresta,
a floresta com o Eu.

Percorro
não tão noite,
não ainda dia.
Adentro a bruma
e eu sou a bruma.

Percorro
o além
aquilo que não conheço.

A água pulsa
a língua palpita
e minhas pegadas
são um alfabeto de vida e jornada.

Percorro
adentro mais a floresta
minha estrada sou eu
e a própria floresta em mim.

.......................................................................

Quando os doze livros

forem escritos

vinte e duas de minhas vidas serão mortas.

E a força titânica

que me prende a roda romperá.

Eu serei fagulha dourada,

leve entre constelações

o céu, azul profundo,

molhará minhas mãos

e pintará meu rosto.

Conexões e fluxos.

As mãos da tecelã divina

voltarão.

Silenciarei

Serei silêncio

Energia cálida que pulsa

ascende

essência.

BALADA DAS DUAS DA MANHÃ

entre eu e você

já nasci estragada

estrela contrária

madrepérola de sal

havana capitalizada

 

não importa o que eu faça

o que mude

ou a música que cante

pra você

algo

sempre falta em mim

 

cafe moído com açucar demais

o certo na hora errada

grão de milho extraviado na caatinga

muito sono pra pouca noite

a verdade que ainda não é verdade

coração que não bate amor

 

não importa

o que eu faço

o que eu sou

 

nunca boa o suficiente

suficientemente desamada

desarmada

entre sorrisos bobos

amanhecendo longe...

 

longe

não

importa

JÚLIA DE CARVALHO HANSEN(1984) poeta paulistana, graduou-se em letras pela USP e é mestre em estudos portugueses pela Universidade nova de Lisboa. Seu primeiro livro , Cantos de Estima, (2009) teve duas edições de materiais, tamanhos e tiragens diferentes. Publicou também Alforria Blues ou Poemas do Destino do Mar,(2013 ) e O túnel e o acordeom (2013)

Temes a noite onde os nomes não se registram nos radares

e as palavras como joelhos afastados pela mão de outro

são caixas-pretas boiando no mais marinho dos oceanos.

 

Um avião cruza os ares em direção a um batizado.

É o seu eco que cola as sílabas umas as outras

rejuntes de significado, amálgamas do esquecimento.

 

Se só pensas em assentar as mais corretas, maneiras

de permanecer, feito cal, espalhado pelas espáduas

trêmulo cimentado teu coração, um canteiro de plantio

para as alfaces – soníferas e insípidas – do cotidiano.

De ti, só poderei aceitar atrelar-me, como um mexilhão.

 

Agora sou na tua rocha. E de mim se aproxima outro,

que os passageiros não alcançarão. Age antes de querer

com todos os olhos de quem nunca tinha tocado bivalves

sem enciclopédia ou Discovery Channel

feito um miúdo se maravilha, ama as pérolas,

sabe bem mastigá-las com os dentes até parti-las.

 

Como eu, um dia, também contigo, tentei.

POEMA DO DESTINO DO MAR

Acordei em Lisboa com o barulho de abrirem

um lençol molhado no céu

e tentavam arrastar as colinas para o rio.

Ao meu lado desenhavas

as linhas de um mar apavorado

mas grande demais para fugir.

 

Guardo junto a outros. Tudo o que me importa.

Há uma caixa ali, do lado esquerdo de quem está comigo,

onde estão aos quantos instantes iguais

gravados nas milhares de fotografias

digitais pelos turistas no mundo agora

e eu. Tão madura, tão rude, inconstante

cinqüenta mil doçuras que te apavoram

cinqüenta mais cinqüenta mil e duas paisagens com uma pessoa em frente

ícone, um totem do igual

queimado pelo vermelho do sol.

 

Ou que quer dizer isso?

Esse lugar que desaparece com uma chuva-fria

os quatro dias dados aos combatentes do entretenimento

seus pés que incham, desacostumados a andar e

clicam. Para a tia que ainda existe, uma empregada atenta

tua mão distraidamente na varanda da minha mão.

Como o vento grava em uma roupa

um alvo é só um vulto. Que quer dizer isso?

Um beijo dado

mais tarde.

..........................................................................................................

Tenho sido entregue

às mais escuras

das noites mudas.

Que posso eu?

No entre desses espinhos?

Ando tão baixo

quanto as formigas

mas se arbusto não sou

por que tenho vivido

eu coberta de espinhos?

Da queda fez-se um ninho

maceradas folhas de sombra

abrigam o meu corpo.

É o esquecimento da terra.

Mas por que, por que

vesti-me de espinhos?

Si soy el temblor, o lugar

onde o trovão diz

EU é o meu peito

alargado.

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tá, me deixa mas

vou te falar uma coisa bem sincera

já que o nosso amor

vem de outra era

a baliza desta é a espera

tá bom o vínculo deixa 

eu te dizer

vou ser bem sincera

não, não é a primavera

eu ligada assim em você

é que não existe mais

nesta esfera o que eu procure

de nós dois nada nada a temer

não tema

que ainda sobre que ainda falte que ainda haja o que dizer que ainda

se elabore o ainda

a minha fera

é tigrada fingida

a minha bala migrada

eu atingida

sou um espelho que se espelha em cacos de um espelho espelhado

migrarei para dentro do espelho

e vou renascer em lago

eu não consigo te dizer o que estou procurando dizer

em ti

um alicate uma tesoura um nunca mais 

por favor não diz nada que me meta objetivamente numa coisa objetiva o objetivo o objeto o obtido o bocejo

sim eu estou por todo o lado e por todos os lados eu estou sem você

BÁRBARA BENTO(1993) poeta alagoana, é formada em magistério e é bacharel em serviço social pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente publica periodicamente na revista Alagunas e em sua página do facebook que tem por título Doce Intuição de Vênus. Vive em União dos Palmares, terra natal de Jorge de Lima e de Zumbi.

O SILÊNCIO

O silêncio é a descoberta,

O silêncio é um corte,

O silêncio é uma ferida aberta

É a afta na ponta da língua,

É o veneno guardado na cauda,

É o passo sorrateiro,

É uma garganta inflamada

É o afago do incompreensível,

É a agonia do doente,

É a paz pra muita gente,

É a rebeldia na tortura,

É um coágulo no corpo,

É a inibição da tolice,

É a resposta inteligente,

É o medo da mesmice,

É o ápice da coerência,

É a falta de vontade

É o alarme pra desgraça

É a armada da usura,

É quem mais diz quando não fala.

PALAVRÃO

A palavra é uma dor no nervo ciático,

É um tiro de raspão,

Que fere, mas não mata

A palavra é hepática,

Causa pena e comoção,

É um pensamento ricocheteado,

Que cai na boca do mundo

Ora como riso, ora como choro

A palavra é dona do próprio nariz

E sai agalopada de um coração venenoso

Mas no último suspiro é só ela que salva,

Ainda bem que os mudos também falam.

Palavra é um desejo despercebido,

um sentimento desavisado,

É um cisto que precisa ser retirado,

senão incomoda,

que nem cisco em lente de contato.

INVERNO

Na vida, o risco

Na boca o grito

No olho, um cisco

No quarto, suspiro

A noite, chuvisco.

CORPO VIOLADO

A letra morta

A voz,

Atroz,

Feroz

E o gosto embebecido

A mosca que voa frenética,

A ferida enrijecida

O cheiro desavisado

Os passos de bota

O sangue vivo

A carne exposta

Bate com força e mata

As esperanças

As paredes

A lâmina em vermelho vivo

Como os lábios escarlates

E a lingerie violada

Tem cera de vela na mesa

E no chão a moça morta.


Publicado por Rubens Jardim em 19/12/2016 às 19h48
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28/11/2016 23h57
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (84ª POSTAGEM)

KÁTIA BENTO (1941) poeta capixaba, cursou enfermagem no Rio e fez parte do grupo AdVersos até meados de 1972. Participou da antologia Las Voces Solidárias, Buenos Aires (1978) e conquistou destaque com vários poemas-postais. Publicou: O azul das montanhas ao longe(1968), Principalmente Etc(1972), Contrafala(1980) e Romanceiro de Amuia(1980).

NOSSA SENHORA DA TELEVISÃO

Esta imagem

entronizada na sala

manda que cales.

 

Com sortilégios

lança quebrantos -

luzes que tonto

comes e bebes.

 

Ela decide

teus gestos, dita

o prato do dia -

te veste e doma

 

:esta imagem fria

da redoma.

 

LINHA DA VIDA

A vida se desenrola

no dia a dia entre os dedos -

meada frágil/arisca

fio

que mal contido/à mão

se solta/esvoaça.

 

Então se converte em calos

o ato de reavê-la -

dias a fio enrolá-la,

fina linha em carretel.

Retê-la, no incessante

gesto que vinca a pele.

 

Então se converte em luta

o jogo de atar à palma

da mão,

a linha da vida -

entre a tatuagem do corpo

e o sopro vário do vento.

 

VERBO SONEGAR

Na declaração de bens ninguém

conta a árvore que tem.

 

No imposto de cada ano

se escreve a casa, o terreno.

 

mas fica em claro o espaço

da flora que não se declara -

 

omissa a linha vaga

da árvore que se sonega.

 

Na folha do documento

não se lê flor galho tronco -

 

o amorável bem imóvel

se oculta em silêncio e trinco.

 

Homem de bem, ninguém,

ao fisco, preto no branco,

 

põe esse verde a limpo.

 

O VENTILADOR

Com todas as letras

espalha-se o vento.

 

e se pronuncia

sutil movimento

 

:cabelos flutuam

papéis esvoaçam

 

as coisas em leque

dançam no espaço

 

Mas vem uma pausa

na eletricidade

 

e o sopro suave

já nada ventila.

 

E a dor outra vez

é a súbita sílaba

 

que pousa na pele

se finca e fica.

SILVIA ROCHA(1958) poeta paulistana, é formada em jornalismo e mestre em comunicação social pela ECA. Praticante do haikai, participou de antologias e já venceu o concurso de poesia falada da revista escrita(1987). Ministra oficinas de haikai e já publicou Estação Haikai(1988) e Gestação Haikai(1990).

sem ninguém

sem vintém

como ser zen?

......................................................................

flores de maio

no meu quintal lavado

gotas de orvalho

..................................................................

solidão

não te come não te mata

te retrata

.......................................................

meus guias do além

me guiam

além

...........................................................

sopro de vela

me leva

me vela

..............................................................

curta

a vida é

curta

..............................................................................

crescer dói

não crescer

destrói

LÁZARA PAPANDREA (1965), poeta mineira, é formada em história e pós graduada em teoria literária. Coordenou até 2011 o grupo Café com Poesia e Arte, que ainda faz apresentações regulares no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes. Publicou o livro de poemasa Tudo é Beija - Flor(2016) Vive atualmente em Juiz de Fora.

Amo absurdamente

O chão sobre a casa

O telhado dos dias escassos

Enterrado a sete palmos

Rasos.

Quando encero meus olhos

Ainda ouço passos.

Os fantasmas agora me amam

Também absurdamente.

E me chamam.

E me chamo sarcasmo.

 

NOS CONTORNOS DA MÃO

no contorno das mãos

um destes silêncios

não gestados

 

nos dedos cerrados

imprestáveis girassóis

emprestados à manhã

que tarda a esconder o sol

 

aprendo a me esquivar

dos boatos

[com os gatos]

 

amuo

amo

amuados

miados

 

meus punhos tão fechados!

 

CRISE HÍDRICA

seco

o corpo

o copo

o vento

o medo

a rua

o alento.

secura de não dar enredo

de não poder poesia

de não saber candura.

seco

feito placa dura

de cimento num esquecimento

de séculos.

seco, e nossos dedos

rígidos de pecado e dádivas.

...............................................................................

você me diz que a morte é regra

nem me despedaço!

não acredito

não quero.

se essa for a grande verdade

me cego

me chago

me sangro

me esmero para não acreditar.

não será essa a cilada.

não será esse o tango

a dançar.

não agora nem nesse lugar

de demoras no seu quadril.

 

MELINA FLYNN (19  ) poeta japonesa, nasceu em Myioshi, Japão, mas passou a maior parte de sua vida no Brasil. É atriz, escritora e tradutora. Gosta de cinema, fotografia, música, literatura e escrita. Canceriana é descrente de signos, novelas, futebol e religião. Explica o escrever como o expectorar. Não escreve para que se entenda e sim para que se sinta. Publicou o livro Amores Brutos (2011)

 

Não se iluda não

que eu te fascino

pra te ter

depois te engulo

e te cuspo

porque não quero mal

pro meu corpo

viro bicho

boca vermelha

olhos negros

eu quero tudo

que me faça mais forte

felina

ferina

fera

se digo que sou tua

é pra fazer pose

não sou moça

não tenho postura

sou vaidosa

eu não sumo

eu somo

me lanço

avanço

em ti

provoco

em mim

uma revolução

pra depois contar história

ter as marcas e os gostos

os sotaques e os trijeitos

pra ser várias

até achar uma

que me convença

 

NADA

Estou descalça

taça na mão e

uma gota de vinho

em meu seio.

A cidade me estupra

e por dentro

me soa um alarme:

ou me salvo ou morro.

MISÉRIA

As gentes me ferem

quando falam de si

e eu me ponho em soluços

porque sou demais minha

e sei tanto de mim

que é como labirinto:

já não tenho saída.

A suficiência não está

em se pintar por fora

pra se fingir por dentro

assim estou crua

de pés pelados

arranquei a roupa da vontade

e me coloquei pra descansar

entre lençóis brancos

sentindo teu cheiro de chuva

pedi antes que me levasse pra casa

me desse um filho

e três dias te olhando de graça.

Acabei entreaberta

me esfregando na saudade.

 

DESLINDAR

são quatro e trinta da manhã

sozinha

dez horas o sol me esmurra a cara

sozinha

café

ração para o gato

banho

jornal

sozinha

um pouco de fome e náusea

migalhas na mesa

cabelo esvoaçado

(me dá a tua mão)

triste é me ver assim

e nem vejo mais

não passo pelo espelho

não lembro

mas me arrepiam os poros

quando penso

sozinha:

escrevo

pra te tocar.


Publicado por Rubens Jardim em 28/11/2016 às 23h57
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original.
 
09/11/2016 12h16
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (83ª POSTAGEM)

ANA NEUSTEIN (1943) poeta mineira, cursou filosofia na PUC, em São Paulo, cidade onde vive há muitas décadas. Filha do poeta Dantas Motta, conviveu no meio intelectual, escreveu e guardou seus escritos por quase 50 anos. Só recentemente, seguindo sugestão de amigos, resolveu divulgar os seus escritos guardados. Eles foram selecionados e reunidos no livro Poemas(2012).

ESPERANÇA

A esperança é tirana

Anda mal acompanhada

Passeia com doenças e infortúnios

Proíbe-nos de olhar o irreversível

Adia os finais

É brasa encoberta

Cega suas vítimas

É agente dupla

Conhece técnicas de tortura

Enfeita as dores

Esconde a morte

Promete o impossível

Mas... é vital como o Ar

É verde

Esmeralda bruta e bela.

VISITA

Diga que sou bem-vinda e me ofereça um café

Quando a colher girar na xícara

Ela se transformará numa caixinha de música

E a colher numa bailarina.

NOITE

A noite é casada

Junção de fora com o dentro

Do anjo e do demônio

A noite tem seus sons e seus habitantes

Estalidos, miados,passos e mistérios

Está eternamente grávida

E eternamente dando à luz

A realidades sem nomes

Que vivem perto do amanhecer.

PERDA

Você sabe?

É claro que você sabe

Toda perda é como um caroço de abacate.

Não passa na garganta.

Só resta colocá-los na água

Pra ver se brota.

FLÁVIA PEREZ (1968) poeta carioca, é formada em biologia, com mestrado em Microbiologia Agrícola. Vive em Campinas.Participou de várias antologias (Bar do Escritor Terceira Dose, Quinta Barnasiana, En la Otra Orilla del Silencio (Mexico, 2011), Vide-Verso. E publicou os livros Leoa ou Gazela, Todo Dia é Dia Dela(2009), Poesia se Escreve com T(2011) e AntropoFlágica.

modos

Na mesa e no meio das gentes,
ele é meu cavalheiro.

Puxa a cadeira pra eu sentar,
enche meu copo de vinho
(só até o meio),
abre a porta pra eu passar primeiro,
ajoelha, num rasgamento
beija-me de leve a mãos,
e pede-me em casamento
(finjo que penso, mas depois aceito).

Nem preciso pedir:
“Poupe-me e me comporte,
comporte-se conforme os preceitos
da princesa e seu consorte”,
pois na frente de todos,
me canoniza,

e abotoa até o último botão da camisa.

Mas depois,
sozinhos na cama
meu bem me sodomiza.

DROGA

Essa paz de mãos dadas

passeando na calçada

que você espera,

também quero.

 

Quando for velha!

 

Por ora

dê-me o prometido

pirâmides, xamãs,

chamas,

viagens de hipogrifos.

 

Indisciplina,

dê-me agora

que seu verbo absinto em mim

arrepia

e me desnorteia.

 

Quero você

latejando

no meu pulso,

injetado na veia.

 

Dê-me logo essa droga de você!

RHODES

Ele é enorme

e aperta o corpo

-pedra-

contra o meu.

E me machuca.

Ele abre o zíper

e esse Colosso

de pé

na entrada da cidade

assusta um pouco.

Mas eu avanço.

É que o gigante

fala coisas

no diminutivo

(- bucetinha, bucetinha, bucetinha...)

em meu ouvido.

Então me rendo.

-Acho

que não sou boa

da cabeça-

ESPECIARIA

À espera submarina

do peixe-dos-terremotos,

ela sonha seus versos toscos:

 

alegorias escondidas

em margaridas sulferinas

e antigos signos mortos.

 

Lá no fundo do barco,

nos porões do que foi,

estão seus olhos de ontem.

 

Esses velhos marinheiros

repetem o fog sob os cílios.

 

Incrustados,

não reconhecem cenário,

pátria, ilha ou parada,

nem quando veem os filhos.

 

Com lentidão de sereia,

a mulher que desveste o espelho

à boca soma acalantos.

 

E guarda que nela se afoguem

outros lábios vermelhos,

inchados

de tanto prazer e pranto.

 

AUREOLADA

Eu tão anjo tenho andado

que em mim nasceram asas.

 

O que me perde pro céu

é esse meu grande

rabo

endemoniado

e minhas coxas grossas...

 

NÃO CULPEM NELSON

Eu sou um INA 38

na sua gaveta

embrulhado em lingerie

de renda preta.

 

Sou puro sangue e desatino:

Nelson Rodigues

filmado por Tarantino.

CYELLE CARMEM (1978) poeta paraibana, formou-se em Letras em 2003 e concluiu o mestrado em Literatura e. Cultura pela Universidade Federal da Paraíba em 2006. Lecionou lingua portuguesa em cursinhos preparatórios para concursos e trabalha, atualmente, como editora de uma revista acadêmica. Publicou Luzes de Labirinto(2010) e (Uni)verso (2012)

DO SENTIDO

O que sinto não precisa de permissão

Não precisa de casa

Não preciso de sopro ao ouvido.

 

O que sinto vive do ar da brisa distante.

Vive de um retrato antigo

Vive de uma palavra gasta.

 

O que sinto não precisa de estrada

Seu atalho foi coberto pela mata

Seu riacho há tempos está extinto.

 

Não precisa de papel contrato

Não precisa de luzes acesas.

Sobrevive do silêncio do escuro

Da grade trancada a sete chaves.

 

O que sinto não precisa de autorização

Sobrevive sem um pedaço de pão.

 

O que sinto não precisa de vida ou de morte

Existe por si mesmo

E escolhe o seu próprio norte.

A EVA

Castigada pelo pecado de Eva

meu coração segue

rasgado pela costela emprestada.

Nasci marcada pela mordida venenosa

levando nas costas

e no peito a letra escarlate

da culpa,

da traição

e do julgamento alheio.

 

Lembrança de um paraíso perdido

minha sina é

ser perdição dos desesperados

e a salvação dos escolhidos.

 

Nasci de um engano das escrituras

manipulação do Hades

idealização de Zeus

falha de planejamento:

o homem será para sempre

cobrado pela costela

roubada.

CARNE

Não sou verdadeira comigo mesma

Deturpo os indícios

Saboto os ofícios

Falsifico os compromissos.

 

A carne dessa dor

da profundeza da alma

não lateja

apenas apodrece, contamina

o que há de bom.

 

Essa carne é mordida de dentes

sacola de restos

esquecida num canto da sala.

 

Mas à noite

ela cheira

às vezes é aroma temperado de comida fresca

outras é fedor de lama de feira

onde não se sabe o que é

do lixo

ou da mesa.

TRÊS LINHAS DE INFINITO

Ser breve

apesar da imensidão

Ser rápida

apesar da extensão

Prolixo

já não cabe.

Há de ter conteúdo

em três linhas de infinito.

MEL DUARTE(1988) poeta paulistana, foi uma das atrações mais provocadoras do sarau que marcou a abertura da festa literária de Paraty, cujo vídeo viralizado foi compartilhado milhares de vezes. Faz parte do coletivo Poetas Ambulantes e é uma das organizadoras do Slam das Minas-SP, batalha de poesia para o gênero feminino . Já publicou dois livros de poemas:Fragmentos Dispersos(2013) e Negra Nua Crua (2016).

Verdade seja dita

Você que não mova sua pica pra impor respeito a mim.

Seu discurso machista, machuca

E a cada palavra falha

Corta minhas iguais como navalha

NINGUÉM MERECE SER ESTUPRADA!

Violada, violentada

Seja pelo abuso da farda

Ou por trás de uma muralha

Minha vagina não é lixão

Pra dispensar as tuas tralhas

 

Canalha!

 

Tanta gente alienada

Que reproduz seu discurso vazio

E não adianta dizer que é só no Brasil

Em todos os lugares do mundo,

Mulheres sofrem com seres sujos

Que utilizam da força quando não só, até em grupos!

Praticando sessões de estupros que ficam sem justiça.

 

Carniça!

Os teus restos nem pros urubus  jogaria

Pq animal é bicho sensível,

E é capaz de dar reboliço num estômago já acostumado com tanto lixo

 

Até quando teremos que suportar?

Mãos querendo nos apalpar?

Olha bem pra mim? Pareço uma fruta?

Onde na minha cara tá estampado: Me chupa?!

Se seu músculo enrijece quando digo NÃO pra você

Que vá procurar outro lugar onde o possa meter

 

Filhos dessa pátria ,

Mãe gentil?

Enquanto ainda existirem Bolsonaros

Eu continuo afirmando:

Sou filha da luta, da puta

A mesma que aduba esse solo fértil

A mesma que te pariu!

PRECIOSO

Ele me quebra quando a fala sobra,

quando o peito transborda e deixa a palavra vir à tona.

 

Na falta de flores e risos diurnos

sobraram lembranças de afagos noturnos.

 

Estimulo, confesso- Criei um muso!

 

Não é seu… Nem meu

Mas de quem souber fazer bom uso.

 

Gente que guarda dentro de si tanta beleza

Sabe o jeito de nos invadir assim... Com sutileza.

PAZ

Necessitava de um simples agrado,

Mal não faria em dizer Obrigado

Difícil é viver sempre no passado,

E se houvesse mais cordialidade, no meio dessa guerra de egos ninguém sairia machucado.

NOTURNA

Tua marca, fincada na minha carne nua.

Teu desejo exposto numa face crua.

Meu corpo, entregue a sorte tua.

Num quarto baixo, num foco de luz, numa madrugada escura...

 


Publicado por Rubens Jardim em 09/11/2016 às 12h16
Copyright © 2016. Todos os direitos reservados.
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21/10/2016 15h29
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA--82ª POSTAGEM

MILENE SARQUISSIANO(19  ) poeta gaúcha, é jornalista formada pela Universidade Católica de Pelotas.Funcionária pública concursada trabalha há mais de 19 anos na Prefeitura local. Atua também como free-lance em rádio e tv a cabo. Começou a escrever em 2009 e publica seus poemas em blogs e sites da internet.

EMBOSCADA

não é na força bruta

que se ganha a luta

nessa guerra de arranha

é preciso alguma manha

um olhar de emboscada

uma língua revirada

destemida e servil

que mire o inimigo

e finja que não o viu

pernas firmes e ligeiras

deslizando sorrateiras

frente à zona de perigo

chamando pro combate

sem direito de resgate

lábios seios e umbigo

e tudo mais

que morra e mate

VERSO ARRIADO

Me arranha no rosto

Me enreda na réstia

Me enrola na marra

Me amarra na manha

Me arrasta no raso

Me arrasa no resto

Me arranca no tranco

Me enrosca no tronco

Me enrasca na garra

Me arrisca na guerra

Me arruma na linha

Me arrola na rima

Me arria no verso

ALUADA
fatio o dia
em pedaços
de mil delícias
saboreio
lentamente
mas se à noite
a lua cheia
de açucar
escorrer
pela janela
pra dormir
no meu umbigo
me melar
e virar calda
perco o foco
e as metas
dou adeus
às dietas
devoro
de colherada

NÓS

Tu Baco

Eu boca

 

Tu riso

Eu rosa

 

Tu farto

Eu forte

 

Tu leme

Eu lume

 

Tu trova

Eu trevo

 

Tu bronca

Eu brinco

 

Tu atroz

Eu atriz

 

Tu brisa

Eu brasa

 

Tu gema

Eu gomo

 

Tu figa

Eu fogo

 

Tu tronco

Eu trinca

 

Tu reta

Eu rota

 

Tu tanto

Eu tonta

 

Tu ramo

Eu rima

 

Tu traço

Eu troço

 

Tu nau

Eu nua

PAT LAU (   ) poeta paulistana, já foi Patrícia Laura Figueiredo e Patrícia Laura. Desde cedo dedicou-se à poesia e ao teatro. Publicou o livro Poemas Sem Nome (2011) em edição bilíngue português/francês, No Ritmo das Agulhas(2015) e Poemas Bebês(2016). Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha, e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia.

nem os segredos do meu pai nem os teus

nem os nossos

 

cultivo

jardins secretos

isolo

acolho

escondo e guardo

 

no buraco das folhas

nos vermes que passam

nas dores das cores

me calo

 

alimento

afago

 

a fuga do vermelho

o silêncio do preto

cada parte de sombra

molhada

 

nem os segredos do meu pai

nem os teus

nem os nossos

 

no silêncio das flores

maduras

um rasgo

DA VONTADE DE PAZ

comecei tudo de novo

porque é preciso recomeçar

tudo de novo todos os dias

não o -aqui e agora-

mas o possível

a cada segundo o imprevisto

o que nunca será dito

mas vivido intensamente

no presente que recomeça

reconstrói apaga e dói

apaguei o que era

certo e relido e selado

na memória para sempre

para me lembrar do instante

celebrar o improviso

a alegria do presente

a possibilidade da paz

a cada momento

pois tudo recomeça

de novo

todos os dias

o novo

feito do que não pode ser esquecido

a paz que inevitavelmente volta e nos acorda

invadindo com a manhã nascendo com o dia

a possibilidade do novo a cada manhã

a cada novo dia que nasce

cada vez que um olho abre

a paz

a vontade da paz

ouvindo o barulho

das guerras lá fora

feito de outras historias

chorando a dor das derrotas

recomecei

PANO

escorre noite a dentro

na borda da janela

de madeira envelhecida

 

amanheço

pano duro e seco

dentro da própria vida

 

um poeta não é feito

pra ser conhecido

 

é feito

pra viver escondido

 

debaixo dum pé de mesa

duma asa de xicara

da parte da vela mais derretida

 

um poeta

não é feito

pra ser visto

 

é pra ser lido

enfrentado dobrado

marcado apagado

e depois um grito

 

largado lá onde ele respira

naquela sombra interna

ausência inteira

onde ele habita*

MINHA CASA

no nada ela se equilibrava

minha casa

as salas cada vez mais largas

o quarto cada dia de um lado

por cima e por baixo o jardim

vagabunda na poesia

era assim que eu vivia

minha vida sem horizonte

nenhum

desde menina

(me foi dado) como

enterrado um tesouro

a solidão toda em mim

com ela refiz as salas

quebrei as escadas por ela

destampei bueiros inventei sementes

perfumei venenos e enraizada cresci

hoje em seu nome

vivo ausente

sem medo do presente

nesse mesmo lugar

confortavel

onde jamais existi

LUBI PRATES (1986) poeta paulistana, é graduada em psicologia com especialização em Reich.. Tem publicado o livro Coração na Boca (2012) e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Escreve no blog coração na boca. Edita a Parênteses, revista literária virtual, e traduz. Vive em Curitiba.

ATÉ SÓ RESTAR O DEPOIS

                              sobre o dia 29 de abril de 2015, em Curitiba.

pudesse,

recordaria se havia sol

antes daquela tarde

quando tudo se resumiu a

cinza:

 

fumaça, um

quase

 

aquele estado de consciência frágil

entre estar acordado &

desmaiar.

 

pudesse,

recordaria o cheiro

antes daquela tarde

quando tudo se confundiu a

 

gás

pólvora

sangue.

 

recordaria quais eram

minhas atividades inúteis

antes de acessar a internet&

navegar entre as notícias

 

para descobrir o alvo

dos helicópteros que

sobrevoavam a cidade

 

destruindo

destruindo

destruindo

 

qualquer segundo

de silêncio

 

inibindo os gritos

 

pudesse,

eu recordaria o antes:

 

quando não havia escombros.

SALAR DE UYUNI PARTICULAR

nada que desfaça

 

nada que lave da minha boca o sal do seu corpo,

                esse gosto ruim

 

o sal do seu corpo ferindo meus lábios

deixando-os sangrar

 

resultado de qualquer ousadia, pergunto

ou lembrança

 

nada que desfaça

 

você sabe

 

nada que suavize a escuridão

                desse abismo: amor ou

 

seu contrário, mas

                que também penetra, invade

 

a estrutura do ser.

 

nada que te desfaça em mim.

BOA VISTA

descobri pelo google maps:

                da minha casa até seu ouvido são

                                4.654 quilômetros

 

                                           implacáveis

 

distância que torna-se perto quando

                eu, encantada

                                recordo seu rosto antes de despertar:

 

minha eterna boa vista.

SOBRE MAR DE CARNE E OSSO

ele contorna meu corpo com o seu

por instantes é mar:

água e sal

- não só os olhos desse azul

            que acinzenta-se quando tempestades

atrás de lentes escuras.

vertigem e me entrego

- sei a impossibilidade

de avessar naturezas conturbadas:

não há margem ou poro desafetado

                        pela penetração

perturbação de língua respiração e pelos

ávidos por afogar sentimentos

                        barriga dentro e fora

então acredito em qualquer gota antes

como prenúncio de essa inundação

porque toda água nasce e vibra

                        invasão apenas

para após refluxo, a distância.

RITA BARROS (19  ) poeta paulista, é revisora, tradutora e articuladora cultural. Tem poemas publicados em periódicos literários independentes, Zunái, Mallarmargens, Euonça jornal Ocicero. Autora do blog de poemas Sede de Pedra, também organiza o Sarau Dá Corda, voltado à cultura da diversidade. Publicou seu livro de estréia em 2015, na coleção Kraft

AMOR FATI

quebro

portas e janelas

todos os vidros da sua casa

porque sou a dinamite e um destino

vejo as vísceras espraiadas

beijo a pólvora

e o remorso: você

está por toda parte

colando os cacos

cortando os dedos

ferindo a boca com pregos

interditando o caminho: você

não me deixa entrar

não me deixa entrar

mas eu já entrei

e agora não há lugar

mais estreito que o Atlântico

escute atentamente

a sintaxe do martelo

o uivo ao fundo o choro das crianças

é a última ceia e o banquete

é uma promessa: eu juro

derreter as chaves

atear fogo ao corpo

e soprar

minhas cinzas em seus cabelos

apenas para lembrá-lo

que o tempo é justo 

quando é seu servo

e quando sou

a dinamite e um destino

ORQUESTRA PARA DANÇAS VIOLENTAS

havia

muito tempo numa noite

[essa bandida essa bandida]

e um drama estilhaçado no meio-fio

between my dreams and the real things

enquanto olhávamos nossos sapatos

à cabeceira da pista

 

havia

nesse drama

uma cenografia íntima

um país estrangeiro

um sussurro rompendo a névoa

rasgando o quadro rasgando

nosso contorno liquefeito

 

pequenas dádivas

 

havia

um deus sitiado nesse som

1. ANDE

movo-me.

meus olhos

temporais

destroem tudo

ao redor

do umbigo

do mundo

[nas bocas rasgadas

um retumbar de gemidos]

cega

a cordilheira me lambe

morde

mastiga

engole

o tempo

a cólera

e os cartões-postais

ASSULA STUDIUM 

quebra-se a primeira taça da casa

ela ainda está ali
seu momento 
cindido
repousa no chão da sala
[silêncio de funeral]


eis a dança 
bruta dos vulcões

eis a dança
ignorante dos espaços


ei-la: coxa, ávida, um desastre
rompendo o que não se restaura 
se fazendo só de som e sendo
mais lâmina que a própria lâmina 
do objeto perdido
[agora brilham menos 
os olhos que os cacos]

pisar nos cacos; sentir 
o chão nos cacos; sentir 
o peso do próprio corpo aberto 
para autópsia:

- meu deus!

[está aberta
a temporada dos espantos
                        meu amor]

costurados na pele, os cacos

esquecem que já foram taça 


Publicado por Rubens Jardim em 21/10/2016 às 15h29
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03/10/2016 00h47
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (81ª POSTAGEM)

FIDÉLIA CASSANDRA(1962) poeta paraibana, é escritora, cantora, compositora, jornalista e professora. Trabalhou na TV Borborema, na Rádio Campina FM e no Paraíba online. Publicou os livros Amora(2002). Plumagem (2008). Cartas de Penélope, (2010.) e Melikraton (2013). Tem alguns CDs gravados, com show em diversas cidades do Nordeste.

POÉTICA X

Poesia

É chuva

Que se desmancha na terra,

Um suspiro na boca.

Poesia

É tempestade

Que desmancha a terra.

Procela, procela.

Poesia

É água

Cristalina, de beber.

Pingo no vidro da janela.

LADO DE DENTRO

O amor não cabe no cotidiano

E sim na lágrima, na gotícula,

No abismo.

O amor não cabe no poema.

Ele é a metáfora, o véu, a ostra.

Tudo o que se acha e se perde

Num mesmo instante!


O amor não cabe no papel

E sim na asa, no fogo, no vento...

Nas folhas exangues perdidas no ar.

O amor não cabe no vermelho do tijolo.

Cabe na desconstrução do verso,

Nas ruínas, nas ranhuras, nos sulcos do tempo.

O amor não cabe em si.

Ele é o outro, o próximo.

Aquele que mora do lado de dentro.

CARTA I

Tear tear tear tear –
Labirintos, pontos, tramas,

Arremates... Nós...

Noites a fio, eu, mulher de Odisseu,

Teço sobre as ondas minha

Mortalha de murmúrios –

Ânsia, agonia, mãos, agulha, linha...

Doem-me os dedos – suas feridas sangram...

Lenta é a espera.

Odisseu, o que nunca volta!

BOCEJO

Macunaimamente preguiçoso,

Entediado.
Acordar cedo? Que horror!

Ler Chaucer, Shakespeare,

Dá-me cansaço!

Ahhh! Que delícia essa redinha!

Abre o seu corpo para mim.

Aí, fico enfadado...bocejando...

Aliviadoooo...uma lerdezaaaa...

Sonhando que estou cochilando no capim.

Que delícia essa espreguiçadeira!

Huuummmmmmmmmm! Uma leseiraaaaa...!

Controle remoto, escada-rolante, fraldas descartáveis,

Botões coloridos, lava-louças – Claro que da Brastemp.

Tudo pronto num abrir e fechar de embalagens.

Não é preciso nem mastigar!

Aahhhh! Que canseira!

Como é pesada essa vidinha maneira,

Não levanto nem pra mijar!

MARINA MARA(1979) poeta brasiliense, é publicitária, jornalista, ativista cultural, atriz, roteirista, designer gráfico, consultora de projetos poéticos e literários. Atua pelo Brasil desde 2006 com projetos multimídia. Seu primeiro livro, Sarau Sanitário.com, (2010)é parte de um projeto homônimo que distribuiu poesia por banheiros públicos e pelo mundo virtual.

CAFUNÉ

trocaria litros

de café pelo

seu cafuné

e noites de

boemia

pelo seu

bom dia

O MCDONALD´S ME COMEU

hoje comi mcdonald´s.

pedi meu castigo pelo número

e mesmo sabendo ser efêmero,

fui fast e me food.

por favor, uma promoção:

um combinada de raiva

com molho de autoflagelação.

senhora: esse item está  em falta

mas se quiser, temos molho alienante

que acompanha suas idéias... fritas.

eram mordidas crocantes como isopor

croq! dando à consciência um sumiço

visual colorido, como você pode supor

ah... como não-amo-muito-tudo-isso.

foi como se pichasse meu próprio muro

que há décadas mantinha-se casto

mas foi um castigo aplicado com juro

e hoje, senti-me mais uma no pasto.

era como se cupuaçu, guaraná e guarani

fossem algo ilusório, não poderia estar ali

e viva o país contaraditório!

o mais belo, o mais livre

o que mais insiste em se diminuir.

e hoje, antes de dormir, pedirei perdão

à amazônia, a mim mesma e à nação

por, triste, achar que o bem morreu

mas, “amanhã vai ser outro dia”

melhor que esse, no qual

o mcdonald´s me comeu.

SÃO SETE

Ele mora nas sete cores

E ao som das sete notas

Engana os pecados capitais

Um a cada dia da semana

Acertando os sete erros

E vivendo suas sete vidas

Todas de uma só vez

POMBAGIRA

Não depile meus pelos

Com seus apelos estéticos

Depile seu preconceito

Com argumentos éticos

Não julgue minhas

Intenções pelo tamanho

De minha saia

E na próxima estação

Troque seu machismo

Por um belo

Tomara-que-caia

E que o seu desamor

Não desperte minha ira

Pois fada madrinha

É para os fracos

Eu tenho é pombagira

AMANDA BRUNO(19  ) poeta mineira, é graduada em Letras pela UFMG, com um semestre de intercâmbio na Université Charles-de-Gaulle - Lille 3. Publicou no jornal Letras, Desfaces e zines como o Amendoim e o Barkaça. É autora do livro Por Aqui (2013)  e foi incluída na coleção Leve um Livro com a seleção de poemas Pó de Asfalto(2016).

a menina ve TV

e repete a palavra

até perder sentido

 

em breve irá repetir o mundo

e esperar

que faça sentido

TOMEI CORAGEM

tomei coragem

me chamei para sair

 

comi pizza

à luz de velas

 

bebi vinho

e relaxei

 

comprei um doce

no café ao lado

 

dei uma volta

na lagoa

 

me fudi

a noite toda

pro Leopardi

parece:

 

melhor que viajar

é arrumar a mala

 

melhor que o fato

é a imaginação

melhor que a data

é a véspera

 

melhor que o orgasmo

é o tesão

 

seja como for,

 

a poesia

é melhor que o amor

pro Teus

não tenho ponto de vista

que ponto não tem tamanho

 

nem linha de raciocínio

que linha é só num plano

 

tenho é plano pro mundo

e nem é cartesiano

 

levo tudo na flauta

que toco no último volume

LAURA LIUZZI(1985) poeta carioca, participou da abertura da última Flip, ocasião em que leu e ironizou um poema bem ruim de Michel Temer. Trabalhou com o documentarista Eduardo Coutinho, como assistente de direção, nos filmes Um Dia na Vida, As Canções e Últimas Conversas. Publicou os livros de poemas: Calcanhar(2010) e Desalinho(2015).

INSTANTE

Existe um curto espaço

de tempo um pequeno

buraco negro que engole

todas as grandes certezas.

Entre o dedo no gatilho

e uma bala disparada

abre-se uma imensa

fenda onde a entrada

da razão é terminantemente

proibida. Entre o último

pulso do coração e o seu

repouso, o tempo se dilata

milimetricamente

e mergulha as memórias

no fundo do mar lá

longe da terra lá onde

nunca dá pé. Nesses

curtos espaços nós não

pisamos porque não

cabemos. São tão curtos

que talvez nem existam.

AUTORRETRATO

Como pode água nascer

de pedra

como pode, posso eu

também ter matéria

grave e intransponível

conjugada a esta outra

transparente, irrepresável.

 

Basta um olhar à fotografia –

o bebê no colo

o papel envelhecido.

Ao mesmo tempo que um avança

somando anos

o outro recua, mais antigo.

 

Quando as tardes pareciam

maiores

quando o fim do dia

era o fim do dia

quando tatuagens não eram

para sempre.

 

O tapete da sala era branco

e peludo, parecia um bicho

depois da ração diária.

O sol entrava geométrico

e, espremendo-se entre as grades

desenhava escarpas

onde eu me deitava

junto ao bicho.

Eu fechava os olhos

para ver as cores no escuro.

 

Só o que morria era inseto.

 

Sorrir nunca foi fácil.

Cresço com a boca miúda

e ainda não gosto de piadas.

 

Conservo a interrogação

quando de frente ao espelho:

como pode ser tão diferente

o frontal do perfil?

E me pergunto, desde lá

se todos enxergamos as mesmas coisas

se a língua não é tão só

um mesmo código para coisas distintas

se entre mim e você

não há um abismo sem solução.

 

O que sei é o que não sei

sobre projetos de futuro.

 

E mesmo assim escrevo cartas

(funcionam melhor que espelhos)

para meu próprio endereço.

Me respondo como se já tivesse

arquivado toda a memória

e pudesse confortar

confrontar o porvir.

 

Quando escrevo me passo a limpo

sem riscar as imperfeições.

 

A infância ainda gravita

em mim. Não só

a minha, mas outras

que vêm com músicas

sub-reptícias, por um atalho

por onde atravessam

com a velocidade

incalculável

do tempo.

 

Dar nome às coisas:

primeiro passo torto

até que se deseje

as coisas puras

sem auxílio de som --

a rosa única

a pedra que se sabe pedra.

Segundo passo, falho:

inominar.

 

Nos retratos guardamos nos olhos

o vidro dos olhos do gato

a cama ainda desfeita

a última tempestade

e o escuro do que virá.

 

[Colher nas mãos o que

das mesmas mãos se extinguiu:

pedra papel tesoura.]

ORQUESTRA

Não há cortina

para esconder os músicos

nem mesmo a música

se esconde nos instrumentos.

 

Está tudo aos olhos da platéia

porque a sinfonia não se pode ver

senão nos gestos do maestro.

 

À minha frente, antes do primeiro

comando, pode estar o violoncelista

em terno preto, como muitos ouvintes.

                                                   

Quando se sentam os músicos

cada um em seu tempo afina

seu instrumento e acerta a folha

da primeira sinfonia: confusa algaravia.

 

Então vem o regente

sob uma saraivada de palmas

com sua vara de condão.

 

Os músicos ajeitam a coluna

alisam os traços do rosto

e encaram o maestro

 

que, com dois olhos apenas

cruza com todos que têm nele a mira

buscando a confirmação

de que pode começar.

 

Tão logo soerga

a batuta e soe

o primeiro acorde

ouve-se, milagrosamente, o silêncio.

ARQUITETURA

            com o pensamento em Franz Kafka

Encapsular o inferno
numa tarde sem mais
de Praga. No entanto
era ele quem deslocava
a cidade para a parede
incalculável de seus olhos.

Auscultar o pântano
de sua razão intranquila
até que nenhuma ponte
se arme para nossa passagem.

Inventar entradas falsas
(entrar sem sequer ter saído)
traços pontilhados, estradas.
Procurar praças estações catedrais
como um cão sem faro.
Como um cão fora de si.

Alcançar o fio cego do horizonte
por algum túnel longíquo
incomunicável; abastecer
o teto mais que o chão.

 

 


Publicado por Rubens Jardim em 03/10/2016 às 00h47
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