Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
19/10/2009 14h59
APESAR DA NEGRA FULÔ TER ROUBADO QUASE TUDO, JORGE DE LIMA OCUPA LUGAR DE DESTAQUE NA CASA GRANDE DA POESIA BRASILEIRA
Em abril de 1973, organizei e publiquei Jorge,80 Anos, livro que procurou resgatar o nome e a obra do poeta Jorge de Lima. Um poeta que já foi muito festejado e famoso por causa de um poema célebre que  freqüentou quase todas as antologias poéticas: Essa Negra Fulô. Dizem que a Fulô roubava de tudo: jóia, renda e marido. Sua vida e suas artes (um esplêndido cafuné) couberam em menos de oitenta versos. A danada da negrinha achou pouco e continua roubando: a atenção dos críticos, a preferência dos estudantes, a voz dos jograis. Quem saiu perdendo foi quem a criou: Jorge de Lima, poeta bem maior e mais complexo do que a Negra Fulô.
Exatamente por esse motivo, no livro Jorge , 80 Anos, a danada da negrinha ficou de fora. Como ficaram de fora também os poemas publicados nos livros XIV Alexandrinos, Poemas, Novos Poemas, Poemas Escolhidos e Poemas Negros. E por uma razão muito simples: essa parte da obra de Jorge de Lima já foi suficientemente divulgada e estudada. O que não acontecia com os outros livros. Caso de Tempo e Eternidade, A Túnica Inconsútil, Anunciação e Encontro de Mira-Celi, Livro de Sonetos e o monumental poema em dez cantos Invenção de Orfeu.
Na época, a situação do poeta Jorge de Lima era das mais constrangedoras. As revistas e os suplementos literários não mencionavam mais o nome do poeta e seus livros desapareceram das livrarias. Consequentemente, até estudantes universitários ignoravam sua importância. Mas graças ao Ano Jorge de Lima, nós conseguimos reverter essa quadro melancólico e levamos o “príncipe dos poetas alagoanos” para a casa grande que ele construiu na literatura brasileira.
Nessa entrevista –fictícia e que não aconteceu—e foi publicada no livro Jorge,80 Anos, fiz uma montagem com textos retirados de algumas de suas obras. O resultado é uma interessante amostra da personalidade singular do poeta Jorge de Lima, cuja poesia foi considerada por Carlos Drummond de Andrade como “das mais belas e significativas da nossa língua.”
Abaixo reproduzo a entrevista. Todas as perguntas foram extraídas da enquete feita pela revista Civilização Brasileira na década de 60, com poetas das mais variadas tendências e estilos.
 
Por que escreve poesia?
Escrevo para me encontrar no tempo.Veja que apesar dos retrocessos de cultura e civilização em que o mundo periòdicamente se debate, a presença da poesia é mais sensível e mais real que os terroristas e as guerras.Nós, os poetas brasileiros, devemos nos integrar na imensa floração espiritual que brotará da terra mais salgada de sangue e de lágrimas. É possível que este continente americano, ou mesmo que esta humanidade brasileira cujo homem fraterno vai adquirindo uma longitude e uma latitude de alma só conseguidas por outros povos com o domínio da força bruta polarizada para o mal, é possível que seus poetas sejam amanhã os eleitos para inaugurar e não para rememorar. Poderemos elevar o nível dos corações, projetar as nossas mãos para consolar o distante companheiro aturdido pelas decepções da vida nos quatro pontos cardeiais.
 
Para que serve a poesia?
Podemos marcar funções para o teatro: as de educar, divertir, criticar. Ou para a oratória e a política. Mas não para a poesia, que não é mestre-escola, nem baedecker, nem meeting. É verdade que existem poetas que fazem da poesia um acontecimento lógico, um exercício escolar, uma atividade dialética. Mas para mim, a poesia será sempre uma revelação de Deus, dom, gratuidade, transcendência, vocação.
Escrevi sempre o que desejei escrever, e se hoje me dedico a outras tentativas de arte, não é porque ache bonito ser romancista ou pintor, mas porque estas necessidades de vidência se impuseram dentro de mim, chegando a constituir uma condição essencial de minha vida total, verdadeira, absoluta.
 
Qual o papel da poesia no mundo moderno?
Meu caro amigo, não demos deliberadamente papéis à poesia. Desde que se dê à poesia a incumbência de puxar sardinha para o lado de que quem quer que seja, ela deixa de ser poesia. No entanto, em todos os tempos, teve uma função social importantíssima, já que o poeta foi sempre o anunciador das grandes reformas universais.
 
É a poesia acessível ao povo ou só pode ser entendida por uma elite culta?
O que há é poesia que se explica e poesia que não se explica. Qualquer poema em que há dramas de inteligência dentro de um plano racional, como Essa Negra Fulô e muitos poemas, pode ser explicado pela crítica racional e inteligente, mas, desde que há superação do inteligível e um ar misterioso venha a banhar o poema, como explicá-lo? Jamais. Aí não podem mais atuar os processos racionais e inteligíveis, mas somente os processos intuíveis.
 
Como encara a poesia brasileira do momento?
A poesia contemporânea do Brasil é a mais bela de toda a América e uma das mais fortes, das mais construtivas do mundo atual.
 
Qual o seu conceito pessoal de poesia?
Um poema é um acontecimento muito maior que uma distinção oficial, pois Mira-Celi e os seres que vivem nos meus versos, realmente existem, como qualquer indivíduo do mundo animado.
 
O que a distingue das outras formas de arte literária?
A poesia é hoje um modo de conhecimento, afetivo embora, conatural embora, ainda que imperfeito e fazendo mesmo dessa imperfeição a sua grandeza e, por mais paradoxal que seja, a sua perfeição mesma. Nisso estou com Paulhan quando diz que a poesia é um mistério "mas um mistério natural". Mistério natural até no seu modo de conhecer e comunicar o mundo particular do conhecimento poético.
 
Qual a sua experiência como autor de poesia?
Não faço o que poderia agradar aos outros, mas o que nasce em mim e luta para se libertar de minha sensibilidade, sem ligar a qualquer espécie de chatos. Escrevi sempre o que desejei screver e só por uma necessidade íntima e não por diletantismo, por imposição do que ontem fui e hoje serei é que meu caminhomuda.
Muitos me chamam de diletante: acho que o artista tem a sua realidade própria, e não está sujeito a nenhuma exigência superior. Aliás, parece que o que há, no Brasil, com os escritores, é um inexplicável medo de ser “eles mesmos”, sem premeditações nem compromissos.
Muitos são os espécimes de homens de letras que traem a si mesmos, não tendo coragem de enfrentar a crítica, preferindo realizar coisas impessoais e informes.
Há quem me acuse de não compreender a missão social do escritor, nos dias de hoje, em que as forças da opressão pretendem sufocar a liberdade e os direitos humanos. Há nisto outro engano. Meus poemas, o romance Calunga, A Túnica Inconsútil, finalmente toda a minha obra literária, é social, porque nela eu falo do homem, de sua presença no mundo, de suas lutas e sofrimentos, de suas inquietações e de seus desejos. Aliás, ninguém pode fazer um romance dizendo de início: “Vou já, já escrever um romance social”. Puro engano. O romance é que emerge social, revolucionário, católico, etc. impressentidamente, como se revelasse ao escritor sua alma grafada em letra de forma.
 
Sofreu alguma evolução formal ou temática?
Depois dos Poemas Escolhidos que apareceram em 1932, comecei a sentir-me insatisfeito com a minha poesia, a ansiar por novas soluções. Passei a inclinar-me, então, não mais pelo genero de poemas que fazia, mas por outro de fundo místico. E como não tinha compromissos de escola, senti-me inteiramente à vontade para empreender a desejada renovação, já havendo compreendido que o plano mais elevado para isso seria uma poesia que se restaurasse em Cristo, que é a mais alta Poesia, a mais alta Verdade, o nosso destino mesmo. Hoje noto que esse era o meu caminho natural, inevitável, pois minha infância me fez místico.
 
O que acha da inspiração?
Acho que a arte utiliza-se da pessoa do artista como de um veículo que se puxa ( não auto), possuindo ela sua presença própria, sua realidade. A arte seria revelação, o artista receptáculo dessa revelação. O artista é apenas um colaborador na magia de que é o oficiante, na tragédia sagrada de que é cúmplice.
 
Quer dizer que o poeta é um ser antenado, como se diz por aí?
Sim. Basta dizer que todas as revoluções têm sido precedidas pelas ideologias de escritores, de poetas, de pensadores. Thomas Morus, com uma antecedência de 4 séculos, no seu livro Utopia, predisse as revoluções sociais de hoje; Ovídio, também com antecedência de séculos, no seu livro As Metamorfoses, escreveu: "Nada se perde, nada se cria na natureza: tudo se transforma", enunciado este que Lavoisier confirmaria, após o decorrer de centenas de anos. A idéia do micróbio estános versos 
de Lucrécio. Desta sorte, se os poetas, se os escritores, se os santos, conseguem ser mais velozes que a lerdice da ciência, é natural que eles enxerguem mais a verdade, a justiça, a fraternidade dos homens, onde estas estejam ocultas e impossíveis de serem restauradas pelos apoéticos dos tempos hodiernos.

Tem algum conselho para a nova geração de poetas e escritores ?
A nova geração não precisa de conselhos. Ela, mais feliz do que nós, velhos, nasceu no momento propício da poesia, embora ande essa geração aturdidíssima com os fenômenos sociais. Além disso, em poesia não há conselhos. A poesia por si é antevisão, profecia e sabedoria e nenhum conselho pode ou poderá modificar sua trajetória e sua essência.
 

Publicado por Rubens Jardim em 19/10/2009 às 14h59
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