Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
06/12/2010 12h20
Cada poema é um objeto único, criado por uma "técnica" que morre no instante mesmo da criação. A chamada "técnica poétic
CONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA E O POEMA

O que é a poesia? Em que consiste a criação poética? Como se comunica este dito poético? Essas questões inquietaram a mente e o coração de um dos poetas mais expressivos da modernidade. Octavio Paz circulou com desenvoltura e competência não só pela poesia, mas também pela prosa poética, pela biografia, pelo ensaio. E em todos esses generos nunca abandonou a sua condição de poeta.

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola, une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Ideia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!


Como não reconhecer em cada uma dessas fórmulas o poeta que as justifica e que, ao encarná-las, lhes dá vida? Expressões do algo vivido e padecido, não temos outro remédio senão aderirmos a elas - condenados a abandonar a primeira pela segunda e esta pela seguinte. Sua própria autenticidade mostra que a experiência que justifica cada um desses conceitos os transcende. Será preciso, portanto, interrogar os testemunhos diretos da experiência poética. A unidade da poesia só pode ser apreendida através do trato desnudo com o poema.
Perguntando ao poema pelo ser da poesia, não confundimos arbitrariamente poesia e poema? Já Aristóteles dizia que "nada há de comum, exceto a métrica, entre Homero o Empédocles; e por isso com justiça se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo". E assim é: nem todo poema - ou, para sermos exatos, nem toda obra construída sob as leis da métrica - contém poesia. No entanto, essas obras métricas são verdadeiros poemas ou artefatos artísticos, didáticos ou retóricos? Um soneto não é um poema mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico - estrofes, metros e rimas - foi tocado pela poesia. Há máquinas de rimar, mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poemas; paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos: são poesia sem ser poemas. Pois bem, quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta, estamos diante do poético. Quando - passivo ou ativo, acordado ou sonâmbulo - o poeta é o fio condutor e transformador da corrente poética, estamos na presença de algo radicalmente distinto: uma obra. Um poema é uma obra. A poesia se polariza, se congrega e se isola num produto humano: quadro, canção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo. O poema não é uma forma literária, mas o lugar do encontro entre a poesia e o homem. O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou omite poesia. Forma e substância são a mesma coisa.

Veja abaixo mais alguns textos extraídos de sua vasta e competente obra em prosa e verso:


"As crianças, as mulheres, os enamorados, os inspirados e mesmo os loucos são a encarnação do maravilhoso. Tudo o que fazem é insólito. São irresponsáveis, inocentes. Imãs, pára-raios, cabos de alta tensão: suas palavras e seus atos são insensatos mas possuem sentido. São os signos dispersos de uma linguagem que desdobra diante de nós um leque de significados contraditórios --resolvido, por fim, em um sentido único e último. Através deles e neles o universo nos fala e fala consigo mesmo.”
“Um ser que não tem passado, que não tem mais do que futuro, é um ser de pouca realidade. Americanos: homens de pouca realidade, homens de pouco peso. Nosso nome nos condenava a ser o projeto histórico de uma consciência alheia: a européia.”
“O mexicano se sente arrancado do seio dessa realidade, simultaneamente criadora e destruidora, Mãe e Tumba. Por isso grita ou cala, apunhala ou reza.”
“Para os norteamericanos o mundo é algo que se pode aperfeiçoar; para nós é algo que se pode redimir.”
A resignação é uma de nossas virtudes populares. Mais que o brilho de uma vitória nos comove a integridade frente a adversidade.”
“Não somos francos, mas nossa sinceridade pode chegar a extremos que horrorizariam a um europeu. A maneira explosiva e dramática com que nos entregamos revela algo que nos asfixia e sufoca.”
“O culto a vida, se de verdade é profundo e total, é também culto a morte. Ambas são inseparáveis. Uma civilização que nega a morte, acaba por negar a vida.”
“Para Rubem Dario, como para todos os grandes poetas, a mulher não é somente um instrumento de conhecimento senão o conhecimento mesmo. O conhecimento que jamais possuiremos, a súmula de nossa definitiva ignorância: o mistério supremo.”
“É revelador que nossa intimidade jamais aflore de maneira natural, sem o estímulo da festa, do alcool ou da morte.”
“O tempo mítico não é uma sucessão homogênea de quantidades iguais. Ele se
acha impregnado de todas as particularidades de nossa vida: é largo como uma eternidade ou breve como um sopro, nefasto ou propício, fecundo ou estéril.”
“Defender o amor tem sido sempre uma atividade perigosa e antisocial. E agora começa a ser, de verdade, revolucionária.”
“Escrevemos para ser o que somos ou para ser aquilo que não somos. Em um e outro caso, nos buscamos a nós mesmos. E se temos a sorte de encontrar-nos --sinal de criação--descobriremos que somos um desconhecido.”
“O inspirado, o homem que fala de verdade, não diz nada que seja seu: por sua boca fala a linguagem.”
“A poesia não salva o eu do poeta: dissolve-o na realidade mais vasta e poderosa da fala. O exercício da poesia exige o abandono, a renúncia ao eu.”
“As palavras e seus elementos constitutivos são campos de energia, como os átomos e suas partículas. A atração entre sílabas e palavras não é distinta da dos astros e dos corpos.”
“O homem é criador de maravilhas, é poeta, porque é um ser inocente. A poesia é o testemunho da inocência original.”
“O poeta moderno não tem lugar na sociedade porque, efetivamente, não é ninguém. Isto não é uma metáfora: a poesia não existe para a burguesia nem para as massas contemporâneas.”
“Há muitas maneiras de dizer a mesma coisa em prosa; só existe uma em poesia.”

Clicando neste link  http://www.youtube.com/watch?v=74XT01s7fMU você poderá assistir entrevista em que Otávio Paz fala de sua mãe, seu pai, seu avô, do campo e do zapatismo.
http://www.youtube.com/watch?v=17rvJEh6oMA clicando neste outro você poderá ouvir o poeta dizendo um de seus poemas.





Publicado por Rubens Jardim em 06/12/2010 às 12h20
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