Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
27/05/2011 20h58
Álvaro Alves de Faria é um poeta comprometido com o seu povo e com a sua língua

UMA DECLARAÇÃO DE AMOR À VIDA,
À POESIA, À HUMANIDADE

Transcrevo esse texto, sempre visceral e iluminado, do meu amigo: poeta Álvaro Alves de Faria. É uma homenagem a todos que estiveram presentes naquela noite de sábado no Sarau da Casa das Rosas. Mas é mais do que isso: é uma homenagem a todos aqueles que não estiveram lá, mas acreditam na palavra poética. É uma homenagem a todos nós que ainda acreditamos no mundo e alimentamos a esperança de transformações. Fiquei emocionado com essa declaração de amor pela poesia e pela humanidade. Eis o texto:

"No sábado à noite, em plena noite de escuridão, em plena noite de muita dor, fui à Casa das Rosas, na Paulista, dirigida pela meu amigo poeta Frederico Barbosa. Pedi para minha filha Daisy ir comigo. Tinha medo de me perder na cidade limpa de São Paulo. Cidade dos becos. A cidade alucinada que corta as veias aos pedaços e deixa que os delírios escorram pelas calçadas, aos pedaços de passos e sombras. Um recital de poesia. No meio de suas sombras, a cidade ainda faz recitais de poesia, o que é bom para todo mundo. Tantas lembranças dos anos 60, a Catequese Poética, de Lindolf Bell, O Sermão do Viaduto, os recitais que fiz no Viaduto do Chá. Nove recitais com microfone e quatro alto-falantes. Cinco prisões pelo Dops, num tempo de horror. Tantas palavras guardadas por dentro, onde está, enfim, a vida. Onde a vida está. Tudo isso conversado ali com calor, com orgulho mesmo de ser poeta, de participar de alguma maneira, de rasgar coisas, de gritar as palavras esquecidas. Nunca serei merecedor do que disse de mim meu amigo Rubens Jardim. Nunca. Tudo que disse de mim, dedico a ele. Recital de meus amigos Rubens Jardim e Ruy Proença. Belíssimos poetas. Rubens dos anos 60, Rui, mas novo que nós. É bom saber que nem tudo está perdido. Depois dos dois poetas da noite, as pessoas, muitas pessoas, subiram ao pequeno palco para ler os seus poemas no “sarau”. Uma maravilha. Gente que começa a escrever. Gente que vem de longe para ouvir poesia e dizer seus versos, gente que ainda acredita no mundo. Fiquei comovido duas vezes, profundamente comovido: por Rui Proença e Rubens Jardim e depois pelas pessoas que leram seus poemas simples, de palavras simples, de uma vida simples, de um país distorcido em desastres constantes, um país do faz-de-conta, um país corrupto, que não tem vergonha de ser o que é, um país desigual, de gente esperta, os que decidem os destinos. Poemas com tais palavras tão doces que chegam a machucar. Saí da Casa das Rosas tropeçando em mim, dentro de mim. Pelo menos ainda nos resta a poesia. E essa poesia, um recital de poesia de dois amigos, me salvou mais uma vez. Eu tenho a impressão que ainda estou vivo."


Publicado por Rubens Jardim em 27/05/2011 às 20h58
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