Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
01/12/2018 15h33
TODO BOM POEMA ABRE UM ESPAÇO NOVO. E ALI CABEM OS MUNDOS NOVOS E OS MUNDOS SUBMERSOS.

Fiquei muito impressionado com a foto que vi aqui no face da nossa querida e admirada Lygia Fagundes Telles.E isso trouxe de volta os anos finais de minha mãe.O paralelo tem a ver por uma única razão: ambas eram muito bonitas, charmosas e elegantes. E mesmo já em idade avançada, tipo 80 anos, mantiveram esses traços e essas características. Incluo nessa trindade a querida poeta—e amiga—Astrid Cabral . Meu primeiro contato pessoal com ela foi na Bienal Internacional de Poesia de Brasília, em 2008.(na foto Astrid, eu e Rubenio Marcelo ) Ela tinha 72 anos e preservava graça e encanto, além de sua poesia sempre instigante e reveladora. Estivemos juntos mais algumas vezes em São Paulo e mantemos contatos via internet. Semana passada recebi seu último livro, Íntima Fuligem—Caverna e Clareira, com uma dedicatória esclarecedora: “Ao querido amigo Rubens Jardim, na esperança que aprecie este meu livro triste, mas verdadeiro. Com o carinhoso abraço da Astrid, Rio,20/11/2018.” 
Divido com os amigos alguns versos que arrebataram minha alma e me encheram de luz e encantamento. “sepulcro de pétalas/o jardim de ontem; o que tenho a dizer/resta em puro silêncio/no deserto do papel; solitária como nunca/sou órfã de toda amarra; já a solidão do corpo/na dolorosa urgência/de ser em carne e osso/requer o socorro do outro; a dor costura qualquer criatura; aonde foi parar a antiga moça?; perdi a pátria da hora/que me pertencia e avulsa/vivo agora em chão de exílio; oco no âmago do osso; em vão tento abrir/portas e portões trancados/no jardim das fotografias; lá do outro lado/onde se reúnem os ontens?; o tempo é dentro de nós; a órfã cósmica/de um deus escondido; destino é sigilo/ que olho nenhum rasga; são nossas lacunas/que nos preenchem; a rotina te engessou/Viraste estátua de sal/Tudo definido e único; a vida é por um triz; velhice,câmara lenta/da morte que carregamos; goza enfim de folga eterna; a redenção é pensar:/confinada num caixão/terei sorte solidária/Serei também esqueleto; só a esperança incansável/é tua bengala na estrada; do paraíso entre pernas/só resta memória escassa; velhice, morte a longo prazo; Aceita o que desnorteia:/alma de centauro tenho./Sou criatura sereia; Existir é beirar abismos./Qualquer dos caminhos/é ponte sobre o pélago; certos amores não crescem;
Após essa partilha das imagens presentes nesse livro tão verdadeiro, sinto-me obrigado a publicar dois poemas que revelam o meu entendimento do fenômeno poético. Ele não tem nada de hierárquico, é verdadeiramente aberto a qualquer ser humano alfabetizado, e rompe com o encadeamento lógico do início-meio-e-fim. Todo poema é uma viagem ao desconhecido no mar das palavras. Mas chega de lero-lero. Vamos fruir essas maravilhas da Astrid Cabral
ADEUS VERDE
Não tenho mais quintal.
Foi-se o da infância.

Ao alcance de meus braços
Terra,orvalho,sons, insetos
Bichos de pelo, penas, cascos
Árvores de galhos vergados
Mangas, goiabas, jumbos, cajus.

Além da fartura das polpas
Folhas que amáveis me abraçavam
Afastando calor e luz.

Hoje se tenho sobre a mesa
Uma bandeja com frutas
Já me dou por contente.
Minha fome é bem pouca.

Os bichos sumiram todos
E a sombra, sempre presente,
Transborda e me sufoca.

CORPO
Ao corpo tudo faz falta:
Sono, abraço,comida, água.

Corpo requer outro corpo.
Solidão, estorvo e logro.

A alma não se desgasta.
O abstrato Deus lhe basta.


Publicado por Rubens Jardim em 01/12/2018 às 15h33

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