Rubens Jardim

A poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano.

Meu Diário
23/07/2019 00h21
POEMA CELEBRANDO A ILHA GREGA DE SANTORINI

A CHEGADA EM SANTORINI
O barco aportou em Santorini
e o tumulto despertou meu coração 
menino. “Para Thira? Sim, nós te levamos
para Thira. Venha conosco.”
Preso à minha língua, e ao cativeiro de
meu corpo, não sei para onde vou.
Só sei que vou por aí, celebrando
sinais antiquíssimos, indícios
da sentença délfica entre
o fogo divino e a taça repleta.

Apesar disso, um burburinho de vozes 
preenche meus ouvidos.São sons familiares. 
Vestígios de imagens que saltam de poemas 
antigos. Mas tudo isso é intraduzível
diante da turbulência desse cáis.

Onde os mitos, os monastérios,
as tumbas, e as mensagens dos deuses?

Onde a triunfal cidade, os negociantes 
de azeite e vinho ? Onde os tronos, 
os templos e os vasos cheios de néctar?

Acho que o amigo poeta tinha razão:
eu também fui visitar a Grécia 
e ela não estava lá.
Estavam turistas de todas as partes, 
mochilas, walkmans,cameras fotográficas,
filmadoras, laptops, celulares e até os últimos
e inúteis desafios da razão moderna.

Mas cadê a presença da lira melodiosa,
da gaita pastoril e da ária de himeneu?
Os antigos erguiam deuses, catedrais
e trabalhavam com arados, bigornas e charruas.

E o que fazemos nós com as chaves perdidas,
as portas ausentes, e os deuses mortos que
sairam da terra e das nossas almas 
e ficaram suspensos entre a imagem e a palavra
a abstração e o objeto, a idéia e a coisa.

Recorrência e surpresa.

Será assim o meu grito
diante da boca agonizante de Apolo?
Ou invocarei Dionísio, 
o deus bailarino para uma contradança?

Por incrível que pareça estou aqui agora, 2003, 
e sinto que não vou mais achar a água 
limpa para lavar os meus olhos. Meu destino 
está suspenso entre a entrega e a reserva
entre o grito e o silêncio, 
entre a festa e o velório.
e todas as coisas solitárias que amo sem compreender.

Entro no ônibus, absolutamente lotado.
Turistas de todas as partes do mundo não confraternizam comigo.
Estou mais sozinho e inutil do que os dourados carros de combate
ou os antigos e sacros teatros que se calaram para sempre.


Publicado por Rubens Jardim em 23/07/2019 às 00h21
 
22/07/2019 18h45
CONTRA TODA ESSA GENTE QUE TÁ AÍ DANDO AS CARTAS

Esse poeminha foi publicado em 1966, no livro Ultimatum.Mais de 50 anos depois, vejo tudo piorando, desgraçadamente pra nós todos...Pra ficar mais óbvio e incisivo inclui imagem e cor. No livrinho antigo foram apenas palavras, palavras...


Publicado por Rubens Jardim em 22/07/2019 às 18h45
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20/07/2019 17h54
O SONHO NÃO ACABOU. NA VERDADE ELE NÃO ACABA NUNCA.

O COLOSSO DE MARÚSSIA --"Aqueles que conhecem Marússia sabem que não há nada de grandioso em relação ao lugar. Também não há nada de grandioso em Katsimbalis. Em última análise, não há nada de grandioso em toda a história da Grécia.Mas há algo colossal em relação a qualquer indivíduo quando ele se torna verdadeira e inteiramente humano.E nunca encontrei um indivíduo mais humano do que Katsimbalis." (trecho do livro O Colosso de Marússia, de Henry Miller. O livro é um relato de sua viagem pela Grécia no início da 2ª Guerra e seu maravilhamento com o poeta Katsimbalis. A foto mostra Miller em Hidra, ilha grega, 1939)


Publicado por Rubens Jardim em 20/07/2019 às 17h54
 
20/07/2019 17h46
“É MELHOR MORRER DE VODKA DO QUE DE TÉDIO.”

 

Ontem foi data de aniversário de nascimento de Vladimir Maiakovsky, poeta russo nascido  em 19 de julho de 1893 na Georgia, filho de um inspetor florestal. Perdeu seu pai muito cedo, e quando tinha 13 anos sua família mudou para Moscou, onde ele ingressou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitectura. 
Em 1911 fundou o movimento futurista e foi um de seus chefes. Sua atividade política se inicia ainda durante o czarismo. Ingressou no Partido Obreiro Socialdemocrata da Rússia, o que vai provocar uma serie de perseguições e prisões.. 
Começou a publicar suas obras em 1912. Coleções de seus versos futuristas apareceram em 1913-1916 com títulos raros, como: “Nuvem de calças”, etc. Viajou muito pela Rússia, propagando ideias futuristas e manifestando apoio a política cultural da administração bolchevique. Nos anos vinte se ocupou decididamente em fazer campanha internacional pela Revolução, cruzando a Europa inteira e intervindo em conclaves e colóquios. Durante esta época, cria elementos práticos de propaganda--cartazes, posters e argumentos para películas além da leitura de poemas na Rússia bolchevique. Em 1923 fundou a revista Lef (Frente de Esquerda) e foi seu redator até 1925. Nos últimos anos de sua vida foi acusado de individualismo e formalismo. Se suicidou em 1930, com um tiro no coração.

“Vou falar do meu ofício não como mestre, mas como aquele 
que faz versos. O meu artigo não tem nenhum significado teórico. Falo do meu trabalho, que, no fundo, segundo as minhas observações e a minha convicção, pouco se distingue do trabalho de outros poetas profissionais. Uma vez mais repito categoricamente: não forneço qualquer regra capaz de transformar 
um homem em poeta e de o levar a escrever versos. Poeta é 
justamente o homem que cria as regras poéticas.”

“A minha atividade literária desses vinte anos converteu-se, essencialmente, para falar com toda a franqueza, num bofetão literário no seu melhor sentido.”
“Em toda a minha vida nunca trabalhei para fazer concessões, ao contrário, tudo em mim se organizou de maneira a desagradar a todos.”
“Os chefes de redação sabem apenas dizer isto agrada-me ou isto não me agrada, esquecendo que o gosto é uma coisa que pode desenvolver-se. Quase todos os chefes de redação me confessaram que não ousam devolver os manuscritos dos poemas por não saberem o que dizer.”
“Digo-vos com franqueza: nunca soube distinguir os iambos dos coreus, nem tenciono distinguí-los. Não por se tratar de um assunto muito difícil, mas porque no meu trabalho de poeta nunca tive necessidade de recorrer a esses truques.”
“Penso, mais de uma vez: seria melhor talvez pôr-me o ponto final de um balaço. Em todo o caso eu hoje vou dar meu concerto de adeus...Executarei meus versos na flauta de minhas próprias vértebras.”
“Nenhum clássico conserva para sempre o seu caráter de vanguarda. Estudai-os e amai-os na época em que viveram. Mas que não venham com o seu enorme traseiro de bronze impedir passagem aos jovens poetas que hoje iniciam o seu caminho. Não digo apenas por mim, mas por milhares de poetas oriundos da classe operária.”
“Li para ele (Gorki) partes do poema Uma nuvem de calças. Num repente de sensibilidade, cobriu-me de lágrimas todo o colete. Comovera-o com os meus versos. Fiquei um tanto orgulhoso. Pouco depois, tornou-se claro que ele chorava em todo colete de poeta.”
“Berliuk me fez poeta. Lia-me franceses e alemães.Empurrava-me livros. Andando, falava sem parar. Não me soltava um instante sequer. Dava-me cinquenta copeques por dia. Para que escrevesse sem passar fome.”
“Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais do que o Prefácio de Marx.”
“E vocë? Poderia algum dia tocar um noturno louco na flauta dos esgotos?”
“Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício.”
“Morre meu verso como um soldado anônimo na lufada do assalto. Cuspo sobre o bronze pesadíssimo, cuspo sobre o mármore viscoso. Partilhemos a glória, entre nós todos, o comum monumento: o socialismo, forjado na refrega e no fogo.”
“Os versos para mim não deram rublos, nem mobílias de madeiras
caras. Uma camisa lavada e clara, e basta,--para mim é tudo. Ao comitê central do futuro ofuscante sobre a malta dos vates velhacos e falsários, apresento em lugar do registro partidário todos os cem tomos dos meus livros militantes.”

“O mar se vai o mar do sono se esvai. Como se diz: o caso está encerrado. A canoa do amor se quebrou no quotidiano. Estamos quites. Inútil o apanhado da mútua dor mútua quota de dano.”


Publicado por Rubens Jardim em 20/07/2019 às 17h46
 



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